A final do vôlei masculino no último dia dos Jogos Olímpicos era esperada como um duelo de titãs. De um lado, a seleção brasileira, campeã olímpica em 2004 e uma das mais vitoriosas de todos os tempos, chegando a sua 25ª final de 27 torneios disputados em 8 anos. Do outro lado, Estados Unidos, o time responsável por tirar o Brasil de uma dessas finais, ainda este ano, no Brasil. A seleção americana, na visão dos próprios brasileiros, era a que mais sabia jogar contra o Brasil, tendo estudado exaustivamente as jogadas e táticas da seleção.

Mas um duelo só se torna histórico quando tem elementos externos, que realçam o que o jogo na quadra já possui de dificuldades, emoção e superação. Mais do que esse currículo recheado de vitórias e do que o histórico de confrontos, o jogo envolvia duas seleções cuja marca era uma equipe muito coesa e problemas superados pelo conjunto.

No caso americano, o que se via em quadra era a melhor seleção do país nos últimos 20 anos. Isto porque desde o bi-campeonato em 1984-1988 (no primeiro ano, em cima do Brasil e de sua “Geração de Prata”, com a participação Bernardinho, hoje técnico brasileiro) os Estados Unidos não chegavam a uma final olímpica. A equipe caiu muito desde essas conquistas e foi bronze em Barcelona (ocasião em que o Brasil ganhou seu primeiro ouro olímpico), 9° em Atlanta, 11° em Sidney e 4° em Atenas. Em três dessas ocasiões, estava presente Lloy Ball, peça importante na campanha olímpica, e o primeiro jogador norte-americano a participar de quatro Olimpíadas. A seleção dos EUA havia ganhado a Liga Mundial em junho e vinha muito focada em bater todos os adversários, principalmente o mais forte deles, a referência, o mais estudado nos últimos quatro anos: a seleção do Brasil. E já nos Jogos, uma fatalidade abalou a equipe americana. O sogro do treinador Hugh McCutcheon foi morto por um chinês um dia após a cerimônia de abertura, e o treinador ficou ausente dos três primeiros jogos, acompanhando a esposa e cuidando da sogra, que também fora atacada e corria risco de vida. McCutcheon voltou à equipe, com o consentimento da família, para terminar a saga que começara há quatro anos. Na final, os jogadores entrariam com as letras iniciais dos sogros do treinador gravadas no tênis, em sinal de solidariedade à família de quem os havia guiado até ali.

Pelo Brasil, chegava-se à segunda final olímpica em 8 anos, após um ciclo invejável, mas que no final de 2007 ganhara contornos dramáticos após a saída do levantador Ricardinho, um dos melhores do mundo na posição, cortado pelo técnico Bernardinho com o consentimento dos jogadores. Muito se especulou sobre a saída, e mesmo com um levantador de extrema qualidade – Marcelinho – a falta do jogador ainda é apontada por muitos como um fator de desgaste. Desgaste não só pela sua falta nas quadras, mas principalmente pelos problemas que o jogador teria gerado dentro do que costuma ser chamada “Família Bernardinho”. A saída de Ricardinho foi uma opção do treinador, em prol da coesão do grupo e de problemas internos que, por mais que se fale, só os jogadores sabem quais são. Além das táticas e jogadas vitoriosas construídas nesses 8 anos, uma das marcas dessa seleção é o alto grau de entrosamento, ajuda mútua e detalhes internos ao grupo, e só ao grupo. Bernardinho falou muito de um pacto, que era só deles. Por fim, as Olimpíadas marcavam o último jogo de muitos jogadores da seleção. Anderson e Gustavo, antes dos Jogos, já anunciavam que seria sua última participação pelo Brasil.

Em meio a esse cenário, as seleções entraram em quadra nervosas, mas com uma garra poucas vezes vista para jogar. Os dois queriam muito o ouro. E quem saiu na frente foi o Brasil, que dominou o primeiro set. Parecia até que seria fácil. Mas os Estados Unidos voltaram com tudo no segundo set e, com atuação fantástica de Clayton Stanley, a seleção chegou a abrir 8×1 diante de um Brasil que errou muito. O bloqueio dos EUA funcionavam na maioria das bolas e houve muitos erros de saque de ambos os lados. Os EUA fecharam o 2° set e no 3° ficaram a frente o tempo todo. No 4° set, o Brasil seguiu na frente até os 20 pontos, e tinha chances de ganhar e levar o jogo para o tie-break. Mas errou bolas decisivas e mesmo com mudanças de Bernardinho – que em uma jogada muito arriscada, colocou Bruninho para sacar no lugar de Giba, ao que o levantandor correspondeu – o Brasil não conseguiu segurar o placar e os Estados Unidos levaram o set, a partida, o ouro. Os americanos se abraçavam e comemoravam a consagração de quatro anos de muito treino e esforço. Por mais que qualquer fator extra-quadra possa ter influenciado, a verdade é que os americanos foram superiores no jogo, e os próprios jogadores brasileiros disseram isso.

Ao final do jogo, alguns brasileiros choraram, principalmente Bruninho e Marcelinho. Mas mais do que pela derrota, a tônica dos jogadores após a partida era de exaltar o orgulho que era participar daquela equipe. Marcelinho falou tudo quando disse que a prata não tinha sabor de ouro, mas de prata mesmo, e ainda assim era muito suada. O próprio técnico Bernardinho, sempre preocupado e, em suas próprias palavras, “neurótico”, chorou ao falar sobre o time de jogadores que teve a honra de treinar.

As dúvidas agora ficam com relação ao futuro da equipe. Não se sabe ao certo quem continuará na seleção. Gustavo já declarou que a decisão fora tomada no começo do ano e não tem retorno. Giba disse que com certeza fica até 2010, mas depois disso não tem nada definido. O próprio Bernardinho, apesar de expressar o desejo de ajudar na renovação do time e de falar que não se imagina longe de tudo isso, não sabe se continuará no comando de umas das seleções mais vitoriosas que o Brasil já teve. Fica a certeza de que quem for fará falta e, mesmo que outras gerações cheguem, essa ficará sempre lembrada como nossa geração de ouro.

[*] Vídeo de Bernardinho, emocionado, falando sobre seus jogadores.