A entrevista abaixo foi realizada antes de Gabriella Silva embarcar para sua primeira Olimpíada, onde conquistou o sétimo lugar no 100 metros borboleta, única final feminina do Brasil em Pequim. Gabriella me falou sobre o início no esporte, o treinamento, as expectativas para Pequim e sua paixão pela natação.

Matéria publicada também no site da BestSwimming

Beatriz: Quando e por que você começou a nadar?
Gabriella: Nadar eu comecei com 3 anos, mas competir mesmo foi com 6. Eu comecei por causa do meu pai, ele achava muito importante os filhos praticarem esporte, e sempre achou a natação o esporte mais completo.

Onde você começou a treinar?
A maior parte da minha vida nadei no Fluminense, depois fui para o Flamengo em 2003 e fiquei 2 anos. Em 2005 fui para o Minas e desde 2006 estou no Pinheiros.

Como foi tomar a decisão de sair de casa tão cedo?
Foi muito difícil, mas tudo aconteceu muito rápido. Foi no final do ano de 2004, em dezembro, que decidi sair do Rio porque via que o nível da natação carioca estava caindo, as competições ficando mais fracas. Ainda tinha 15 anos, minha mãe ficou desesperada, como a filhinha dela ia embora de casa assim! Meu pai me incentivou muito, e foi tudo muito rápido, conversei com o técnico do Minas, eles mandaram a proposta, e acabei indo para Belo Horizonte.

E como foi a experiência lá?
Olha, o primeiro ano foi meio complicado. O treinamento era muito diferente, a cidade era muito diferente… mesmo sendo metrópole como o Rio, BH era mais parada, com clima de interior. Foi difícil ficar longe da minha família, senti muita falta da minha irmã, com quem tenho uma ligação muito forte… isso tudo atrapalhou e eu acabei não me adaptando ao Minas.

Em algum momento você pensou em voltar para o Rio?
Pensei. Mas não sou uma pessoa que desiste facilmente. Ai no final do ano surgiu a proposta do Pinheiros. No ano anterior, quando eu sai do Rio, além do Minas eu tinha cogitado ir para o Pinheiros também, mas eles demoraram muito para fazer a proposta e eu acabei indo pro Minas. No final de 2005 conversei com o Albertinho e tudo se encaixou.

Depois da sua chegada no Pinheiros, em menos de 6 meses você bateu o recorde sul-americano dos 100 borboleta, um dos mais antigos da natação feminina, que já durava mais de 10 anos. Fale um pouco sobre esse começo.
Eu amei e amo a equipe do Pinheiros. Tudo deu certo lá: o treino do Albertinho, a equipe, até a cidade de São Paulo, apesar de eu preferir o Rio, é uma cidade que eu gosto. E o principal mesmo foi o meu técnico. Eu confio demais no Albertinho, no trabalho dele, deu muito certo pra mim. O Pinheiros é uma equipe muito forte, dois terços da seleção brasileira vem de lá. O recorde sul-americano já era um objetivo, mas acabou sendo uma surpresa sair no dia que saiu, porque eu tinha machucado o pé antes da competição. Por causa disso, fiquei 2 semanas parada, então não estava imaginando batê-lo naquele momento. Mas eu sou muito competitiva, e como falei, não sou de desistir fácil das coisas.

Falando em lesão, você já teve uma lesão no ombro, e nadando borboleta, essa região deve ficar bem sobrecarregada. Um artigo da BestSwimming de 2007 falava sobre nadadores de borboleta que mesmo sendo especialistas não treinam tanto o estilo, e você aparece como um dos exemplos. Como é seu treinamento de borboleta?
Pra falar a verdade, acho que a gente, como atleta profissional, se testa toda hora. Não só na competição, mas no treino, é normal sentir muita dor, e eu estou sempre superando meus limites, lutando contra a dor. Um pouco antes do Maria Lenk, inclusive, eu tive uma lesão nas costas e sinto muita dor no treino, mas nem quis tratar e fazer exames antes da seletiva para não me preocupar e acabar atrapalhando na conquista do índice. Agora que passou a competição estou fazendo fisioterapia, e sinto bastante dor, mas como falei isso é normal do atleta. Quanto ao borboleta, realmente é um estilo muito cansativo, então acabo nadando o estilo mais nas séries mais de intensidade. Nas séries com maior metragem, acabo nadando crawl, não dá pra fazer longas distâncias com o borboleta.

Aproveitando que você falou sobre o treinamento, como é sua rotina de treinos?
Isso depende muito da fase de treinamento. Mas basicamente treino de segunda a sábado, fazendo nove sessões de treino dentro d’água (com dois treinos na terça, quarta e sexta). Além disso, segunda, quarta e sexta faço musculação, e na quinta uma sessão de ginástica. A quilometragem varia de acordo com a fase. Durante o período de base, para pegar resistência, chega a 43km por semana. No específico, varia de 35km para menos. E no polimento, que costuma ser uma semana antes das competições, é bem mais leve e tem semana que a gente chega a nadar só 15km durante a semana inteira.

Voltando para as competições, como foi a experiência do PAN em 2007? Foi bem marcante a sua imagem chorando no pódio, e a final que foi muito disputada, com você e a Daiene Dias lutando pela medalha de bronze.
No PAN, eu tinha combinado com meu técnico de não forçar nas eliminatórias nem na semi-final, para guardar energia mesmo para a final. O que aconteceu foi que eu fiquei muito nervosa na final, nadei a prova toda errada, passei muito fraco, na parcial do 50 metros eu estava em 5°. Quando eu virei, ouvi todo mundo gritando, e eu sabia que estavam gritando pra mim e pra Daiene, mas que também era para mim! De repente deu um estalo, comecei a fazer muita força e consegui, foi por muito pouco. Comemorei ali, mas ainda não tinha caído a ficha. Só no pódio, depois, quando eu subi, recebi a medalhe e vi todo mundo me aplaudindo, caiu a ficha, e comecei a chorar. Toda minha família estava lá, foi uma competição muito especial.

No Sul-Americano deste ano, que aconteceu no Pinheiros, foi quando ficou claro para todos que o índice era uma realidade. Como foi isso pra você? Já esperava abaixar de 1 minuto? Já olhava o índice mais como objetivo do que sonho, ou foi só a partir dali que isso aconteceu?
Em 2007, apesar do resultado do PAN, eu não estava treinando muito bem, não estava conseguindo fazer os tempos que sempre fazia. Já queria ter nadado para 59 no open, no final do ano. Não deu, mas a competição acabou sendo boa mesmo assim porque recuperei meu recorde sul-americano e conquistei ali a classificação para o Campeonato Sul-Americano. Na competição, acabei conseguindo fazer o 59, que era uma coisa que eu queria muito, ser a primeira na América do Sul a baixar de um minuto. Por ter sido naquela competição, para a qual eu não estava treinada, onde só esperava chegar perto do meu melhor, ai foi uma surpresa. Mas quanto ao índice, já era um objetivo, algo que eu queria, mas a partir dali acho que foi quando caiu a ficha que eu podia. Eu digo que naquela competição, depois do 59”79, ficando a 44 centésimos do índice, as Olimpíadas deixaram de ser uma possibilidade e passaram a ser uma probabilidade.

E como foi esperar até maio, no Troféu Maria Lenk?
Foi horrível. Faltando duas semanas eu não queria ouvir falar de Olimpíadas, e coincidiu bem com a época que começou a aparecer na televisão que faltavam 100 dias para Pequim. Eu chorava toda hora, qualquer coisa que eu ouvia, pensava como eu queria estar lá, e o tempo não chegava, eu queria nadar logo!

Nesse período costumam passar mil coisas na cabeça do atleta, medo, raiva, alguns até começam a se perguntar se vale a pena isso tudo. Em algum momento algo desse tipo passou pela sua cabeça?
Nunca. Eu amo muito tudo isso que eu faço, não consigo imaginar a minha vida sem natação. Acho que isso tudo faz parte, o nervosismo é chato, mas faz parte. E acho que de algum jeito a recompensa sempre vem, sempre vale a pena.

E como foi o dia do índice? Conseguiu dormir bem na véspera?
Na noite de terça para quarta eu dormi mal, queria fazer o índice logo na eliminatória que seria na quarta à tarde. A partir do almoço até a hora da prova eu fiquei ‘acordadona’, dava pra ver meu olho arregalado, não queria fazer nada. Mas apesar de nervosa eu estava muito confiante, não enxergava a possibilidade de não fazer o índice.

O fato da Daynara ter feito o índice numa série anterior a sua mexeu com você de algum jeito?
Não mexeu comigo porque eu já estava preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Na última seletiva para o PAN isso tinha acontecido, a Daiane [Dias] bateu meu recorde sul-americano uma série antes da minha e tinha me atrapalhado um pouco, então dessa vez eu fui preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Com o tempo que ela fez no 50 livre na terça, vi que ela estava bem e já esperava que ela pudesse fazer o índice nos 100 borboleta. Na hora em que eu vi o tempo, vi que ela tinha feito o índice e pensei que ia fazer um tempo menor ainda.

E como foi a prova e o momento que você chegou e viu o seu tempo?
Foi meio inacreditável porque eu esperava fazer o índice mas ninguém esperava que eu fosse nadar para 58, nem o meu técnico. Então foi até engraçado porque quando eu cheguei ele só ficou olhando os centésimos e quando viu o 90 achou que não tinha dado… mas todos ao redor estavam comemorando, até que outro técnico do Pinheiros virou para ele e falou: “Albertinho! Foi 58!”. Pra mim foi a mesma coisa, vi primeiro os centésimos, e quando vi que tinha sido 58.90 e tinha feito o índice, comemorei muito.

O 58.90 que você fez no Maria Lenk te coloca hoje em 24° lugar no ranking mundial dos 100 borboleta em 2008, sendo que a 8ª colocada está com 58.35, o que é pouco mais que meio segundo abaixo do seu tempo. O que você espera das Olimpíadas? Pensa em semi-final, final olímpica?
A semi-final acho que é algo provável, acredito que dá para baixar o tempo. No dia que fiz o índice eu estava muito nervosa, minha reação no bloco foi ruim, eu passei muito forte. Tenho certeza que dá para baixar, e estou treinando forte, malhando mais forte, comendo melhor… estou muito focada para Pequim. Acredito que a final será muito forte, a natação evoluiu muito nestes 4 anos. Agora tem que pensar em uma coisa de cada vez, primeiro pensar na semi-final, se conseguir, nadar a semi-final é outra história, ai com certeza vou querer entrar na final. Fora que chegando lá muda tudo, entrar no lugar, sentir aquela energia.

O que você espera da seleção brasileira de natação lá em Pequim?
Acho que o masculino está de novo com chances de medalha, principalmente com o César Cielo, que acho que a nível mundial está melhor posicionado até com relação ao Thiago Pereira. Mesmo assim, o Thiago também tem chances e o 4×100 medley está muito forte. No feminino, acredito numa final da Flávia [Delaroli] e da Joanna [Maranhão]. O revezamento 4×100 medley feminino também, acho que a gente deve classificar e lá temos chances de chegar a uma final.

Sei que ainda deve estar muito longe, mas você tem algum plano fora da natação? Pretende fazer alguma faculdade? Com o que gostaria de trabalhar?
Faculdade até tenho vontade de fazer, mas agora mesmo não dá, com esse ritmo louco de treinos não tem como levar uma faculdade. E também, se eu fizer, daqui a 4 anos não vou poder estagiar, trabalhar, então se eu fizer vai ser mais pra frente. Mas o que eu gostaria mesmo era ter um centro de estética. Adoro essas coisas, mexer com pele, cabelo, sou apaixonada por isso.

Pra terminar, queria que você deixasse uma frase, palavra, algo que te inspira.
Tem uma frase que eu gosto, ela é meio grande, mas é muito boa. É assim: “A excelência pode ser obtida se você se importa mais do que os outros julgam ser necessário; se arrisca mais do que os outros julgam ser seguro, sonha mais do que os outros julgam ser prático, e espera mais do que os outros julgam ser possível.”

50 livre feminino – Steffen ganha segunda prova e Dara Torres é prata

Disputada em Olimpíadas desde 1988 no feminino, a prova de 50 livre tem como maior nome na história a holandesa Inge de Bruin, bi-campeã olímpica. Mesmo com a aposentadoria da estrela, o país estava bem representado, com a presença na final das holandesas Hinkelien Schreuder e Marleen Veldhuis. A útlima, inclusive, quebrou em março o recorde mundial da prova que pertencia a de Bruin desde 2000.
Cinco dias depois Libby Trickett tomou o recorde para si e foi a primeira nadadora a baixar dos 24” na prova, nadando para 23”97 na seletiva australiana. Completando a briga pelo pódio, Dara Torres, americana de 41 anos, e a australiana Cate Campbell, de apenas 16 anos. A prova prometia uma disputa entre gerações e uma briga forte pelo pódio.

Torres marcou o melhor tempo na semi-final e nadava na raia 4 pelo primeiro ouro olímpico individual de sua carreira. A forma física da atleta impressionou a todos. Depois de ter uma filha e se aposentar após as Olimpíadas de Sidney, Torres passou a disputar torneios master nos Estados Unidos. Foi convencida a voltar aos treinos pelo técnico Michael Lohberg – que treina atletas de diversos outros países e está seriamente doente, sendo impedido de ir a Pequim. Nas seletivas americanas, conquistou a vaga nos 50 e 100 livre, mas optou por nadar apenas a primeira e os revezamentos 4×100 livre e medley. Dara já era a nadadora americana mais velha dos Estados Unidos a participar de uma Olimpíada e, se conquistasse uma medlaha, seria também a mais velha da história a conseguir tal feito.

Ao seu lado, na 5, estava Cate Campbell, nascida em 1992, ano em que Torres conquistava sua quarta medalha olímpica em sua terceira Olimpíada. A australiana classificou melhor que Trickett, mas mesmo assim a recordista mundial era um dos nomes mais fortes para a prova.

Como qualquer prova de 50 livre, foi tudo muito rápido e Torres parecia ter uma ligeira vantagem sobre Campbell. Mas, nos últimos metros, a campeã dos 100 metros Britta Steffen forçou muito e levou o ouro por apenas 1 centésimo. Dara Torres conquistava a prata, sua melhor colocação individual em Olimpíadas. Campbell levou a melhor na disputa australiana e tirou o bronze de Trickett por 8 centésimos. Veldhuis também não foi bem e marcou apenas a quinta marca, com 25”26.

Mesmo com a prata, Torres fez história. Para se ter uma idéia da grandiosidade do feito, os 24”07 de Torres são novo recorde americano. A primeira vez que Torres bateu essa marca foi em 1982, quando ainda era uma garota de 15 anos. São nada menos do que 26 anos de diferença entre os dois recordes, idade menor do que a campeã da prova, Steffen, que tem 24.

1500 livre masculino – Não deu para Hackett

Após o louvável 5º lugar de Pieter van den Hoogenband, as esperanças de que a natação saísse de Pequim com seu primeiro tri-campeão olímpico recaiam sobre Grant Hackett. Duas vezes ouro nos 1500 livre (Sidney e Atenas), o australiano buscava o lugar mais alto do pódio para escrever seu nome na história.

Após um tempo fora de forma, Hackett chegava bem à capital chinesa, tendo batido o recorde dos 800 livre em piscina curta semanas antes dos Jogos. Nas fortes eliminatórias da prova, onde foi necessário nadar para 14’49 para se garantir na final, Hackett fez fortes 14’38”92 e bateu o recorde olímpico. Tudo indicava que a disputa seria difícil, mas o australiano tinha plenas condições de levar o tri.

Hackett começou na frente, seguido de perto por Ryan Cochrane. Com os 14’40”94 estabelecidos nas eliminatórias, o canadense vinha como o 2° melhor tempo de toda história na prova. Após 700 metros colados com Hackett, o canadense começou a virar na frente, mas o australiano não o deixava descolar. Mas enquanto os dois duelavam, virando na casa dos 29” alto nas parcias de 50, o tunisiano Osama Mellouli vinha chegando na 7, virando sempre para 29” baixo. A partir dos 1100 Mellouli assumiu a ponta e não perdeu mais. Hackett desgrudou de Cochrane e ainda tentou forçar nos últimos 100, mas deveria ter atacado antes se quisesse passar Mellouli. O tunisiano, que treina e estuda nos Estados Unidos, ficou 18 meses suspenso da natação após ser pego no doping por utilizar um remédio com o intuito de o manter acordado durante suas provas na faculdade, mas que figurava também entre as substâncias proibidas. Em Pequim, conseguiu a redenção, levando o ouro e batendo o bi-campeão Grant Hackett, ainda recordista mundial. Com o tempo das eliminatórias (14’38”92) , Hackett levaria o ouro, mas nadando 3 segundos pior na final, o australiano teve que se conformar com a prata.

Cochrane assegurou o bronze numa disputa acirrada com o russo Yuriy Prilukov, que terminou na quarta colocação assim como em Atenas. Larsen Jansen, prata em 2004, foi apenas 5° e o outro americano na prova, Peter Vanderkaay, que chegou a Pequim com o melhor tempo do ano, não conseguiu se classificar para a final.

4×100 medley feminino – Austrália é ouro

Campeãs em 2004, as australianas vinham muito fortes e favoritas ao bi. Com a opção de colocar Libby Trickett para fechar no crawl, a Austrália tinha a campeã do 100 peito (Leisel Jones), a 2ª colocada no 100 livre mas recordista mundial da prova (Libby Trickett) e a 3ª colocada no 100 borboleta (Jessica Schipper). O único ponto fraco era mesmo Emilly Seebohm, que teria que tentar diminuir ao máximo a vantagem certa que Natalie Coughlin imporia aos Estados Unidos.

Coughlin não conseguiu abrir tanta vantagem no costas, mesmo marcando 58”97. A Rússia e a Inglaterra vinham logo atrás e a australiana foi só a quarta nadadora a chegar. Mas com Jones na piscina e sua parcial de 1’04”58, as outras seleções não só foram ultrapassadas como a Austrália abriu vantagem. Para o borboleta, Magnunson, dos EUA ainda buscou Jessica Schipper, e a disputa final seria entre Libby Trickett e a veterana Dara Torres, que já tinha duas pratas em Pequim e queria o ouro. Mas não deu para a americana. Mesmo fechando para a melhor parcial da história, com 52”27, o tempo não foi suficiente para ultrapassar Trickett e a Austrália levou o ouro com novo recorde mundial (3’52”69).

A briga pelo bronze foi boa. A Rússia se manteve na 3ª colocação a prova inteira, mas na saída do crawl a China já virou empatada e quem vinha para fechar era Pang, desclassificada no 100 livre mas um dos melhores tempos do mundo na prova. Não deu outra. A China levou o bronze com 3’56”11, abrindo boa distância das outras equipes. A Rússia não conseguiu segurar nem o 4° lugar, que ficou com a Inglaterra, nova recordista européia da prova.

4×100 medley masculino – Não foi tão fácil, mas EUA levou o ouro e Phelps se consagra como o maior de todos os tempos

Depois da conquista do 6° ouro de Phelps, dizia-se que, conquistando o ouro no 100 borboleta, este já poderia ser considerado o 7° e o 8°. Isso porque seria muito improvável que o revezamento americano perdesse a prova. Mas não foi tão fácil assim, e dessa vez Phelps foi mais que decisivo para a vitória americana.

Peirsol abriu com a condição de campeão olímpico e recordista mundial do 100 costas, mas piorou muito seu tempo e com 53”16 não conseguiu abrir a distância esperada para os EUA. Para piorar, quem caiu para o peito foi Brendan Hansen, que buscava se redimir do seu 4° lugar individual mas nadou mal novamente e entregou para Phelps apenas em terceiro. Kitajima, com uma parcial fantástica de 58”07, colocou o Japão também na briga.

Phelps caiu atrás de Takuro Fujti e Andrew Lautersntein, e ainda virou atrás no 50m, mas com sua virada fantástica assumiu a liderança e entregou para Lezak em primeiro. Após sua atuação fora de série fechando o 4×100 livre, a dúvida era se saindo na frente Lezak também se sairia bem. E se saiu. Sullivan, da Austrália, tentou buscar mas essa realmente não foi sua Olimpíada, e além disso Lezak fechou muito bem. Com 3’29”34, os Estados Unidos levaram o ouro, o recorde mundial e Phelps atingiu seu sonho e objetivo. Chegava à sua oitava medalha de ouro nos Jogos.

200 costas feminino – Kirsty Convetry finalmente é ouro!

Por muitos anos uma das provas mais fracas da natação, o 200 costas ganhou destaque com a chegada da zimbabuana Kirsty Convetry. Campeã em 2004, Kirsty bateu um recorde mundial que permanecia desde 1991. Este ano, na seletiva americana, Margareth Hoelzer baixou ainda mais a marca e prometia uma disputa bonita em Pequim.

Após três pratas na competição, Convetry chegou a sua principal prova com muita vontade de garantir um ouro. Heroína nacional no Zimbábue, a atleta queria ouvir seu hino pelo menos uma vez. Nadando pela 4, após bater o recorde olímpico nas semi-finais, Convetry liderou desde o começo e virou todas as parciais na frente. Hoelzer, pela 2, virou sempre mais de 1 segundo atrás e ainda tentou chegar no final, mas a zimbabuana levou a melhor. À frente da linha do recorde mundial por toda prova, Convetry chegou para 2’05”24, retomando a melhor marca do mundo e vibrando muito com seu primeiro ouro em Pequim e o bi-campeonato na prova.

Em segundo, Hoelzer marcou 2’06”23 e levou a prata. Reiko Nakamura, do Japão, repetiu a colocação das Olimpíadas de Atenas e dos Mundiais de 2005 e 2007, ficando com o bronze.

100 borboleta masculino – 1 centésimo

Apontada como uma das provas mais difíceis de Michael Phelps rumo aos 8 ouros, o 100 metros borboleta masculino era esperada como uma das maiores disputas da competição. De um lado, Ian Crocker, que bateu Phelps no Mundial de 2003 e desde então detém o recorde mundial. Do outo, Milorad Cavic, atleta que representou três países com nomes “diferentes”, devido a fragmentações e questões geopolíticas pelas quais passou (Iugoslávia em 2000, Sérvia e Montenegro em 2004 e agora, Sérvia). No meio, Michael Phelps, recordista olímpico, em busca do seu 7º ouro na competição.

Cavic nadou forte nas eliminatórias e semi-finais, chegando à finalíssima prometendo estragar com a festa de Phelps. Saiu bem e nadou forte desde o começo, virou para 23”42, abaixo do recorde mundial, e mesmo sabendo que Phelps volta muito bem, parecia que não ia dar para o americano. Phelps foi apenas o 7º na parcial do 50m, e Crocker em segundo parecia pronto para sua revanche.

Mas Phelps voltou mais forte do que nunca. Pela câmera sub-aquática, dava pra ver o atleta acelerar o ciclo de braçadas e buscar o sérvio que ainda liderava. Parecia que iam faltar 5m para que o americano levasse. Mas não faltou, sobrou. Sobrou um centésimo de diferença, 1 centésimo para sete outos e um centésimo para 1 milhão de dólares – prêmio da atleta por se igualar a Mark Spitz.

Quem viu a olho nu não acreditou. O resultado do placar desafiou a lógica, mas quem ousaria duvidar de Michael Phelps, que desafia a ciência e o senso comum, com sua virada e recuperação pós-prova inexplicáveis. Pela câmera de baixo d’água é possível ver a vitória.

A federação sérvia resolveu protestar do resultado, inconformada com o que o placar anunciava. Michael Phelps é patrocinado pelas empresas que fazem o equipamento de placar eletrônico, o que poderia aumentar possíveis suspeitas. Mas a hipótese era muito improvável, não daria tempo nem havia condições de se forjar algum tipo de resultqaod. Tanto que Cavic reconheceu a derrota e a federação desistiu do protesto. Phelps chegou melhor e encaixou a chegada, enquanto Cavic deslizou e perdeu ali, na unha.

O recorde mundial não caiu, mas com 50”58 Phelps retomou o recorde olímpico e se tornou o maior nadador de todos os tempos. Já era, considerando-se a época em que nada, onde a especialização em cada prova é cada vez maior, algo que existia em escala muito menos na época de Mark Spitz. Phelps vibrou muito e recebeu um abraço de Crocker, que, também por um centésimo, ficou de fora do pódio. Quem levou o bronze foi Andrew Lauterstein, da Austrália, com 51”12.

800 livre feminino – Nova supremacia nas provas de fundo

Recorde mais antigo da natãção mundial, o 800 livre era a última marca do mito Janet Evan a ser batida. Com nomes como Kate Ziegler, Katie Hoff, Rebecca Adlington e Alessia Filippi, todas com tempos muito próximos, a briga prometia ser boa e o recorde balançava pela primeira vez.

Entretanto, surpresas nas eliminatórias deixaram todos de boca aberta. Não só Hoff, que fazia uma competição ruim, como Kate Zigler, que foi a Pequim só para nadar esta prova, ficaram de fora. Foi uma das únicas provas da competição sem americanas na final. Ai Shibata, campeã em 2004, confirmou a má fase e também não classificou. Rebecca Adlington, campeã dos 400 metros, tinha o caminho livre pela frente e era a franca favorita na final.

E o favoritismo se confirmou. Não só Adlington liderou desde os primeiros 50 como virou sempre abaixo do histórico recorde de Evans. Na parcial dos 500, a inglesa passou 5’07, 3 segundos abaixo do recorde. A diferença se manteve e Adlington chegou para 8’14”10, baixando o recorde em 2 segundos e se tornando o novo nome a ser batido nas provas de fundo.

Em 2º, Alessia Filippi da Itália, que igualou seu melhor tempo. Uma bela disputa pelo 3º lugar deixou de fora Camelia Potec, romena que foi campeã olímpica de 200 livre em Atenas e ficou grande parte da prova na segunda colocação. Lotte Friis, da Dinamarca, garantiu o bronze com 8’23”03, apenas 8 centésimos a frente da romena.

50 livre masculino – Cielo é campeão olímpico e encanta o mundo

Em 1992, Fernando Scherer ficou a um mísero centésimo do índice olímpico nos 50 livre. Assistiu, da TV, seu compatriota Gustavo Borges levar a prata nos 100 metros livre. Quatro anos depois, foi a vez dos centésimos atuarem a seu favor depois de empatar em 8º lugar. Scherer disputou e levou a última vaga da final, se classificando para nadar na raia 8. Um dia depois, foi bronze olímpico. Scherer ainda nadou mais duas Olimpíadas, ganhou uma medalha e, no Pan de 2003, foi tri-campeão das Américas nos 50 livre. Na época, não descartava nadar o Pan do Rio, e chegou a nadar os Jogos de Atenas. Mas logo percebeu que o trono brasileiro dos 50 livre não era mais seu. Se retirou da natação sabendo que, mesmo se quisesse, agora seria muito mais difícil ser o melhor do país na prova. Surgia César Augusto Cielo Filho.

Poucos anos depois, Scherer é chamado por Cielo de seu “empresário”, e é o responsável pela profissionalização do atleta. E na manhã de céu azul e limpo, em 15 de agosto de 2008, Scherer ficou orgulhoso de ver que, do trono brasileiro, seu pupilo chegou ao trono do mundo.

A prova tinha a dose de imprevisibilidade intrínseca ao esporte e específica do 50 livre, a prova mais rápida da natação. Cielo bateu o recorde olímpico nas semi-finais, com 21”34, mas nada estava garantido. O recordista mundial Eamon Sullivan estava na raia 7 e vinha com muita vontade após perder o 100 livre para Alain Bernard. O francês, por sua vez, classificou com o segundo tempo e prometia uma disputa com Cielo nas raias centrais. Pela 1, Amaury Leveaux, que conseguiu a segunda vaga francesa tirando da prova Frederick Bousquet, companheiro de treino de Cielo. Stefan Nystrand (Suécia) , Ben Wildman-Tobriner (EUA) , Roland Schoeman (África do Sul) e Ashley Callus (Austrália) completavam a série mais forte já vista nos 50 livre. A diferença do tempo de classificação entre Cielo e o nadador da raia 8 era de apenas 47 centésimos.

Cielo entrou na final fazendo o sinal da cruz. Nervoso, mas tanto quanto os outros sete que o acompanhavam na final. Após serem apresentados, os nadadores mais rápidos do planeta se preparavam em busca da prova perfeita. Uma piscina, só ida, uma respirada, nenhuma talvez. Cielo rangeu os dentes desde a largada e nadou assim a prova inteira. Como que se lembrando e mostrando para a câmera sub-aquática que ninguém queria aquele ouro mais que ele.

A prova foi rápida e Cielo foi perfeito. Saiu bem, liderou, só precisava chegar certo. E chegou, certo e certeiro para o ouro, o primeiro do Brasil em Pequim e o primeiro da natação brasileira em toda sua história. Minutos depois Cielo diria que não há sensação melhor do que ver o número 1 ao lado do seu nome no placar. Ainda na água, expressou o inexpressável levantando as mãos aos céus, batendo na água e chorando, simples assim.

Phelps, o revezamento americano, a dobradinha chinesa, Federica Pellegrini, foram todos momentos incríveis mas ninguém emocionou tanto o público e o mundo inteiro que o assistia como o garoto de 21 anos, que chorou como uma criança ao viver o momento de sua vida. O cubo virou verde-amarelo e, ainda durante a execução do hino brasileiro, o público aplaudiu de pé e agradeceu a sorte de ter comprado o ingresso para o 7º dia da natação, o 7º ouro de Phelps e o 1º ouro de Cielo e de uma nação inteira. Cielo, do alto de seus 1,95m e da grandeza de seu feito, chorava tanto que não era capaz nem de olhar pra frente e encarar o mundo que o louvava de pé.

Os franceses Amaury Leveaux e Alain Bernard, 2º e 3º colocados, sentiram-se honrados de ver tamanha felicidade no campeão do mundo e Bernard consolou Cielo. Por um momento, deve ter ficado em dúvida se sua vitória no 100 livre te dera tamanha satisfação. As lágrimas de Cielo reforçavam que sua vida é a natação.

Na saída do pódio, Cielo desfilou sozinho, jogou a flor para a mãe que, chorando, via seu filho atingir a consagração máxima do esporte. Pegou a bandeira brasileira de um torcedor e fez todas as câmeras de todas as TVs do mundo focarem nele e no tesouro que reluzia em seu peito e seria seu para sempre. Para completar a festa, a delegação brasileira invadiu a área da piscina e foram todos abraçar Cielo, o homem que comseguiu o que ninguém jamais havia conseguido em 88 anos de história. A comemoração foi inédita, as chinesas até se lembravam de que procedimento seguir em caso de invasão, mas não acharam uma resposta cabível em seu manual de instruções para casos de alegria plena e o brilho verde-amarelo ofuscou seus olhos. O mundo era brasileiro. César é brasileiro. O ouro é de César, por algumas horas do dia 15 de agosto, o maior dos brasileiros.

100 borboleta – Libby Tricket vence mas recorde de Inge não cai

Lisbeth Trickett-Lenton é uma velocista nata. Detém o recorde mundial das provas de 50 e 100 metros livre, sendo a primeira mulher a nadar abaixo dos 53” em piscina longa nesta prova. Campeã mundial, campeã olímpica no revezamento, campeã dos Jogos da Comunidade Britânica. Só faltava uma medalha na coleção da australiana – o ouro olímpico individual. E veio na prova de 100 borboleta, primeira final do 2º dia de provas da natação.

A prova foi disputada, mas não houve surpresas. Libby ficou com a medalha de ouro com 56”73 – apenas 6 centésimos pior do que o recorde de Inge de Bruin, estabelecido há 8 anos em Sidney. A prata foi para a americana Christine Magnuson, que nadou pela raia 5 e fez 57”10, 3º melhor tempo da história na prova. Completando o pódio, a australiana Jessica Schipper, cuja especialidade é a prova de 200 borboleta. Com a vitória de Libby, aumenta para 12 anos o tempo sem uma americana vencendo a prova em Olimpíadas.

Pelo Brasil, a prova foi até agora a melhor performance da natação canarinha nos Jogos. Gabriella Silva, carioca de 19 anos, passou pelas eliminatórias com o 5° tempo com incríveis 58”00 e entrou na final na raia 8. Já é muita coisa, ainda mais considerando a evolução da nadadora. Este ano, no Campeonato Sul-Americano disputado no Pinheiros (clube aonde treina desde 2006), Gabriella foi a primeira sul-americana a completar a prova abaixo de 1 minuto. Cinco meses depois, Gabriella já nadou para 58 cravado e não fez feio na final. Gabriella passou 27.09, o melhor parcial de sua vida, e chegou em 7º com 58.10. Competitiva, embora não escondesse a alegria e satisfação de ter realizado o sonho olímpico, ficou evidente que Gabriella agora quer mais, e a atleta confirmou: “Depois que cheguei à final, agora vou querer medalha. Eu quero mais!”. Madura, a carioca deu uma declaração que sugeriu um pouco do clima da equipe brasileira: “A gente precisa entrar mais frio e racional na competição, se não esse nervosismo excessivo vai continuar atrapalhando a gente”. Palavra de quem sabe.

100 peito masculino – Com ou sem golfinhada, Kitajima é o rei do peito

A evolução na prova de 100 peito é impressionante. Embora a barreira do 1 minuto tenha sido quebrada em 2001, pelo russo Roman Sloudnov, nenhum atleta havia feito 59” em Olimpíadas antes. Para compensar, Kitajima superou na final a barreira do 1’00 e do 59” ao mesmo tempo, marcando 58”91 e o novo recorde mundial da prova.

A final foi forte. Para classificar, 5 atletas nadaram para 59”, e o destaque foi o norueguês Alexander Dale Oen, que bateu o recorde olímpico nas eliminatórias e na semi-final. Na grande final, não conseguiu repetir a primeira colocação – assim como já havia acontecido no Campeonato Europeu – mas garantiu a prata com 59.20. O francês Hugues Duboscq completou o pódio deixando de fora Branden Hansen, antigo recordista mundial da prova. Hansen comprovou um triste estigma que pairava sobre ele. Após chegar como favorito às Olimpíadas de Atenas em duas provas, Hansen não conseguiu nadar bem e perdeu tanto os 100 como os 200 peito, provas vencidas pelo mesmo Kitajima. A redenção não veio em Pequim: além de perder do rival japonês, ficar de fora do pódio e perder o recorde mundial, Hansen não terá a chance de se redimir nos 200 peito: perdeu a vaga americana nas seletivas do país, onde ficou com o terceiro lugar.

400m livre feminino – Nem Manadou nem Pellegrini: o pódio dos 400 é britânico

Um dos mais antigos recordes olímpicos foi quebrado já nas eliminatórias. Katie Hoff, na penúlitma série, e Federica Pellegrini, na última, superaram o tempo de Janet Evans que vinha desde 1988 em Seul. Com o recorde mundial e olímpico da prova, a italiana era a favorita, mas desde o início teve dificuldades de impor seu ritmo e em nenhum momento esteve na liderança da prova.

Quem também prometia mas quase ficou de fora da final foi Laure Manadou, sua rival dentro e fora d’água – Federica namora o antigo namorado de Manadou, Luca Marin, por quem a francesa mudou de técnico e foi treinar na Itália. Depois do rompimento, fotos da nadadora nua apareceram na internet e há boatos de que isso foi obra do ex. Apesar das turbulências e de vir nadando mal nos últimos meses, Manadou sempre é um nome forte e a francesa começou os 150 metros na frente, arriscando tudo. Não aguentou. Aos poucos as britânicas e Katie Hoff chegaram perto, com destaque para a americana, que liderou a prova inteira. Mas quem achou que deixando a italiana e a francesa para trás Hoff garantiria a prova se enganou. A britânica Rebeca Adlington, que virou em quinto nos 300, fechou com fantásticos 59”86 e roubou o ouro da americana na batida de mão por apenas 7 centésimos. A felicidade britânica foi em dobro, porque a conterrânea Joanne Jackson completou o pódio, levando o bronze. As britânicas foram as que tiveram o melhor final – foram as únicas que fecharam para baixo de 1 minuto – e na chegada não acreditavam no que tinham conseguido.

4 x 100 livre masculino – O melhor revezamento da história

Nas últimas duas Olimpíadas, os revezamentos 4×100 livre masculino foram responsáveis por momentos espetaculares, mas nenhum protagonizado pelos Estados Unidos. Em Sidney-2000, os australianos venceram a prova em casa, com o fenômeno Ian Thorpe ganhando de Gary Hall na chegada. Para o Brasil, a prova foi ainda mais especial com o quarteto brasileiro fechando o pódio (foi a última medalha olímpica da natação brasileira até aqui). Quatro anos depois, prontos para a vingança, os americanos esbarraram na sensação sul-africana, que ganhou a prova e bateu o recorde mundial. Quem viu não esquece a bonita comemoração dos nadadores, que subiram na baliza e exibiram a bandeira da África do Sul. Foi inédito e muito emocionante.

Pequim não quis quebrar a tradição e proporcionou um dos momentos mais marcantes das Olimpíadas. O site da FINA, Federação Internacional de Esportes Aquáticos, descreveu o revezamento como épico, e essa talvez seja a palavra exata para o que se viu no Cubo d’Água na manhã de segunda-feira.

Os EUA chegaram com o recorde mundial de 3’12’46, batido no Mundial de Melbourne em 2007, mas seguidos de perto do revezamento francês, que tinha o melhor tempo do ano e o recordista mundial do 100 livre. Foi um duelo de gigantes. Na parcial dos 200 metros, nada menos que seis equipes estavam a frente da linha do recorde mundial, e todas as posições ainda estavam indefinidas.

Quem abriu para os Estados Unidos foi o fenômeno Michael Phelps. Embora não seja sua especialidade, Phelps já era competitivo na prova, e com 47”51 ficou a um centésimo do já antigo recorde mundial da prova. Já antigo porque na raia ao lado, o australiano Eamon Sullivan abriu para 47”24 e roubou para si o recorde que pertencia a Alain Bernard. Trunfo dos franceses, o “ex-recordista mundial” aguardava para fechar o revezamento francês, que tinha muitas chances de vitória.

As previsões se confirmavam. A França ainda estava atrás no segundo parcial, mas quando o terceiro atleta, Frederick Bousquet – que é colega de equipe do brasileiro César Cielo – caiu na água, a equipe da Europa estava na frente. Com a parcial de 46.63, Bousquet acabou fazendo o melhor tempo da França, mas não nadará a prova individual, pois ficou em 3° na seletiva nacional.

Alain Bernard caiu na frente e a medalha parecia garantida. Quem caia pelos EUA era Jason Lezak, com fama de amarelão e tendo que ultrapassar um recordista mundial. Na virada dos 350, ao ver a verdade se confirmando, foi inevitável não pensar que acabava ali a busca pelos oito ouros de Phelps. Seriam sete, quem sabe.

Mas se com 90 minutos o futebol é uma caixinha de surpresas, a natação provou que em 24”56 segundos tudo pode mudar. Lezak teve um final de prova espetacular e ganhou de Bernard no último metro, garantindo o ouro para os Estados Unidos e levando a arquibancada à loucura. O tempo fora de série do americano de 32 anos foi 46”06, extrapolando qualquer expectativa e deixando torcida, atletas e especialistas atônitos. Os americanos vibraram muito e Phelps comemorou como nunca visto. Após a prova, disse à imprensa que nunca sentira o que sentiu quando viu o resultado no placar, além de afirmar que perdeu a voz de tanto gritar. Phelps continua na briga pelas oito ouros, Lezak entra no bolo dos cotados ao ouro no 100 livre, Eamon Sullivan bate a marca de Bernard e nada menos que cinco equipes estraçalham o antigo recorde do 4×100. Aos mortais que os assistiam, restou aplaudir de pé e agradecer o privilégio de assistir um dos embates mais bonitos da história da natação.

[*] Achei esse vídeo da prova, é com narração espanhola e a imagem está bem ruim, mas dá pra ver o final sensacional do Lezak e a comemoração dos americanos.

400 medley masculino – Os deuses também choram

A primeira prova da natação já era uma das disputas mais esperadas dos Jogos, com uma briga acirrada prevista entre Michael Phelps e Ryan Lochte. Este, que na seletiva americana apertou o recordista mundial, prometia um embate ainda mais abertado em Pequim e disse que não tinha medo de Phelps. Para os brasileiros, a final tinha a presença da promessa Thiago Pereira, na prova em que detinha – até as eliminatórias – o 5° melhor tempo do mundo.

Seguindo a tendência da natação, a prova teve uma evolução fantástica nos últimos 8 anos. Para se ter uma idéia, o tempo que deu a Thiago a 8ª e última vaga da final seria o suficiente para ele chegar em 1° lugar em Sidney-2000.

Phelps ditou o ritmo da prova desde o início, seguido de Cseh e Lochte, que chegou a ultrapassá-lo no costas. Mas contou a virada fenomenal de Phelps e a partir do peito o recordista mundial da prova descolou dos adversários e proporcionou aos presentes no Cubo d’Água um show a parte. Com 4’03”84, Phelps deixou para trás a linha do recorde mundial, os seus concorrentes, e o peso da primeira prova na sua saga de oito ouros em Beijing. Foi bonito ver o americano se emocionar no pódio ao receber a medalha e ouvir o hino americano.

Na briga pelas outras colocações, Cseh seguiu muito forte e ultrapassou Lochte, batendo seu próprio recorde europeu com 4’06”16 e garantindo a medalha de prata para a Hungria, país que tem tradição na prova. Seu conterrâneo Gergo Kis ficou com a 6ª colocação. Lochte completou o pódio com 4’08”09, piorando sua melhor marca em dois segundos. Thiago Pereira arriscou e chegou a passar abaixo do recorde mundial no parcial do borboleta. Para quem precisava melhorar pelo menos 3 segundos para chegar no pódio e não tinha muito a perder, acredito que a ousadia foi uma tática correta. Mas apesar de estar em 4° lugar até o parcial de peito, Thiago sentiu muito e fechou com 1’03 no crawl – historicamente sua parcial mais deficiente. O brasileiro terminou na 8ª colocação com 4’15”40.

400 livre masculino – Queimando a largada em um ano, ganhando o ouro olímpico no outro.

Desfalcada da maior estrela dos últimos anos, o australiano Ian Thorpe, a prova de 400m livre masculino era uma disputa em aberto. Sem favoritos. E em meio a um bi-campeão olímpico, um chinês muito apoiado pela torcida e dois americanos, venceu o sul-coreano Tae Hwan Park, que há 4 anos não pode nem nadar as eliminatórias. Em Atenas, Park queimou a largada da prova e não pode competir. A redenção veio na China, com o primeiro ouro da Coréia do Sul na natação.

A prova foi linda. Grant Hackett seguiu na frente até os 200 metros, mas o que se viu depois foi uma volta fantástica dos três nadadores que iriam compor o pódio – Park, Lin Zhang e Larsen Jensen, que fizeram parciais negativas. O sul-coreano conseguiu o incrível tempo de 3’41”86, 2ª melhor marca de todos os tempos – atrás apenas do fenômeno Thorpe. Park havia prometido bater o recorde do australiano. Não foi dessa vez, mas com as fenomenais parciais de 1’51 e 1’50, ninguém pode duvidar deste sul-coreano de apenas 18 anos.

400 medley feminino -Não deu para Hoff de novo

Na prova feminina dos 400 medley, a versão feminina de Phelps não venceu. Nadadora mais versátil dos Estados Unidos, Katie Hoff é competitiva nas provas de medley e em quase todas as metragens do estilo livre – conseguiu vaga dos 200 aos 800 livre para Pequim. Mas na sua prova principal, Hoff perdeu o ouro e seu recorde para a australiana Stephanie Rice, que detinha o recorde antes de Katie. A prova foi dura, e Rice foi inteligente, abrindo muita distância no borboleta e costas, suas especialidades. Seguida de perto por Kirsty Coventry – recordista mundial dos 100 e 200 costas -, Rice ditou o ritmo e venceu com 4’29”45, 2 segundos abaixo do antigo recorde.

Mais impressionante que os fortes tempos do pódio, foi o alto nível para entrar na final. Menos de dois segundos separaram a 8 classificadas, e o 10° tempo, que ficou de fora da final, seria medalha de bronze em Atenas, há 4 anos. O equilíbrio entre as concorrentes e as eliminatória muito acirradas são uma das novas marcas da natação mundial, e na prova de 400 medley isso não foi diferente.

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Nas eliminatórias da prova, a brasileira Joanna Maranhão encheu a natação de orgulho e foi mais uma personagem individual reforçando a beleza que só o esporte pode proporcionar. A pernambucana guerreira mostrou que seu índice não foi à toa, e provou a si mesma que pode voltar a velha forma. Joanna fez 4’40”18, ficando a 18 centésimos de sua marca pessoal, feita em Atenas e nunca mais repetida. O soco na água e o sorriso estampado na cara da nadadora foram o símbolo da recompensa após 4 anos difíceis dentro e fora d’água. A Olimpíada é linda porque permite ao mundo se emocionar com um 17° lugar como se fosse mais um ouro de Phelps