A entrevista abaixo foi realizada antes de Gabriella Silva embarcar para sua primeira Olimpíada, onde conquistou o sétimo lugar no 100 metros borboleta, única final feminina do Brasil em Pequim. Gabriella me falou sobre o início no esporte, o treinamento, as expectativas para Pequim e sua paixão pela natação.

Matéria publicada também no site da BestSwimming

Beatriz: Quando e por que você começou a nadar?
Gabriella: Nadar eu comecei com 3 anos, mas competir mesmo foi com 6. Eu comecei por causa do meu pai, ele achava muito importante os filhos praticarem esporte, e sempre achou a natação o esporte mais completo.

Onde você começou a treinar?
A maior parte da minha vida nadei no Fluminense, depois fui para o Flamengo em 2003 e fiquei 2 anos. Em 2005 fui para o Minas e desde 2006 estou no Pinheiros.

Como foi tomar a decisão de sair de casa tão cedo?
Foi muito difícil, mas tudo aconteceu muito rápido. Foi no final do ano de 2004, em dezembro, que decidi sair do Rio porque via que o nível da natação carioca estava caindo, as competições ficando mais fracas. Ainda tinha 15 anos, minha mãe ficou desesperada, como a filhinha dela ia embora de casa assim! Meu pai me incentivou muito, e foi tudo muito rápido, conversei com o técnico do Minas, eles mandaram a proposta, e acabei indo para Belo Horizonte.

E como foi a experiência lá?
Olha, o primeiro ano foi meio complicado. O treinamento era muito diferente, a cidade era muito diferente… mesmo sendo metrópole como o Rio, BH era mais parada, com clima de interior. Foi difícil ficar longe da minha família, senti muita falta da minha irmã, com quem tenho uma ligação muito forte… isso tudo atrapalhou e eu acabei não me adaptando ao Minas.

Em algum momento você pensou em voltar para o Rio?
Pensei. Mas não sou uma pessoa que desiste facilmente. Ai no final do ano surgiu a proposta do Pinheiros. No ano anterior, quando eu sai do Rio, além do Minas eu tinha cogitado ir para o Pinheiros também, mas eles demoraram muito para fazer a proposta e eu acabei indo pro Minas. No final de 2005 conversei com o Albertinho e tudo se encaixou.

Depois da sua chegada no Pinheiros, em menos de 6 meses você bateu o recorde sul-americano dos 100 borboleta, um dos mais antigos da natação feminina, que já durava mais de 10 anos. Fale um pouco sobre esse começo.
Eu amei e amo a equipe do Pinheiros. Tudo deu certo lá: o treino do Albertinho, a equipe, até a cidade de São Paulo, apesar de eu preferir o Rio, é uma cidade que eu gosto. E o principal mesmo foi o meu técnico. Eu confio demais no Albertinho, no trabalho dele, deu muito certo pra mim. O Pinheiros é uma equipe muito forte, dois terços da seleção brasileira vem de lá. O recorde sul-americano já era um objetivo, mas acabou sendo uma surpresa sair no dia que saiu, porque eu tinha machucado o pé antes da competição. Por causa disso, fiquei 2 semanas parada, então não estava imaginando batê-lo naquele momento. Mas eu sou muito competitiva, e como falei, não sou de desistir fácil das coisas.

Falando em lesão, você já teve uma lesão no ombro, e nadando borboleta, essa região deve ficar bem sobrecarregada. Um artigo da BestSwimming de 2007 falava sobre nadadores de borboleta que mesmo sendo especialistas não treinam tanto o estilo, e você aparece como um dos exemplos. Como é seu treinamento de borboleta?
Pra falar a verdade, acho que a gente, como atleta profissional, se testa toda hora. Não só na competição, mas no treino, é normal sentir muita dor, e eu estou sempre superando meus limites, lutando contra a dor. Um pouco antes do Maria Lenk, inclusive, eu tive uma lesão nas costas e sinto muita dor no treino, mas nem quis tratar e fazer exames antes da seletiva para não me preocupar e acabar atrapalhando na conquista do índice. Agora que passou a competição estou fazendo fisioterapia, e sinto bastante dor, mas como falei isso é normal do atleta. Quanto ao borboleta, realmente é um estilo muito cansativo, então acabo nadando o estilo mais nas séries mais de intensidade. Nas séries com maior metragem, acabo nadando crawl, não dá pra fazer longas distâncias com o borboleta.

Aproveitando que você falou sobre o treinamento, como é sua rotina de treinos?
Isso depende muito da fase de treinamento. Mas basicamente treino de segunda a sábado, fazendo nove sessões de treino dentro d’água (com dois treinos na terça, quarta e sexta). Além disso, segunda, quarta e sexta faço musculação, e na quinta uma sessão de ginástica. A quilometragem varia de acordo com a fase. Durante o período de base, para pegar resistência, chega a 43km por semana. No específico, varia de 35km para menos. E no polimento, que costuma ser uma semana antes das competições, é bem mais leve e tem semana que a gente chega a nadar só 15km durante a semana inteira.

Voltando para as competições, como foi a experiência do PAN em 2007? Foi bem marcante a sua imagem chorando no pódio, e a final que foi muito disputada, com você e a Daiene Dias lutando pela medalha de bronze.
No PAN, eu tinha combinado com meu técnico de não forçar nas eliminatórias nem na semi-final, para guardar energia mesmo para a final. O que aconteceu foi que eu fiquei muito nervosa na final, nadei a prova toda errada, passei muito fraco, na parcial do 50 metros eu estava em 5°. Quando eu virei, ouvi todo mundo gritando, e eu sabia que estavam gritando pra mim e pra Daiene, mas que também era para mim! De repente deu um estalo, comecei a fazer muita força e consegui, foi por muito pouco. Comemorei ali, mas ainda não tinha caído a ficha. Só no pódio, depois, quando eu subi, recebi a medalhe e vi todo mundo me aplaudindo, caiu a ficha, e comecei a chorar. Toda minha família estava lá, foi uma competição muito especial.

No Sul-Americano deste ano, que aconteceu no Pinheiros, foi quando ficou claro para todos que o índice era uma realidade. Como foi isso pra você? Já esperava abaixar de 1 minuto? Já olhava o índice mais como objetivo do que sonho, ou foi só a partir dali que isso aconteceu?
Em 2007, apesar do resultado do PAN, eu não estava treinando muito bem, não estava conseguindo fazer os tempos que sempre fazia. Já queria ter nadado para 59 no open, no final do ano. Não deu, mas a competição acabou sendo boa mesmo assim porque recuperei meu recorde sul-americano e conquistei ali a classificação para o Campeonato Sul-Americano. Na competição, acabei conseguindo fazer o 59, que era uma coisa que eu queria muito, ser a primeira na América do Sul a baixar de um minuto. Por ter sido naquela competição, para a qual eu não estava treinada, onde só esperava chegar perto do meu melhor, ai foi uma surpresa. Mas quanto ao índice, já era um objetivo, algo que eu queria, mas a partir dali acho que foi quando caiu a ficha que eu podia. Eu digo que naquela competição, depois do 59”79, ficando a 44 centésimos do índice, as Olimpíadas deixaram de ser uma possibilidade e passaram a ser uma probabilidade.

E como foi esperar até maio, no Troféu Maria Lenk?
Foi horrível. Faltando duas semanas eu não queria ouvir falar de Olimpíadas, e coincidiu bem com a época que começou a aparecer na televisão que faltavam 100 dias para Pequim. Eu chorava toda hora, qualquer coisa que eu ouvia, pensava como eu queria estar lá, e o tempo não chegava, eu queria nadar logo!

Nesse período costumam passar mil coisas na cabeça do atleta, medo, raiva, alguns até começam a se perguntar se vale a pena isso tudo. Em algum momento algo desse tipo passou pela sua cabeça?
Nunca. Eu amo muito tudo isso que eu faço, não consigo imaginar a minha vida sem natação. Acho que isso tudo faz parte, o nervosismo é chato, mas faz parte. E acho que de algum jeito a recompensa sempre vem, sempre vale a pena.

E como foi o dia do índice? Conseguiu dormir bem na véspera?
Na noite de terça para quarta eu dormi mal, queria fazer o índice logo na eliminatória que seria na quarta à tarde. A partir do almoço até a hora da prova eu fiquei ‘acordadona’, dava pra ver meu olho arregalado, não queria fazer nada. Mas apesar de nervosa eu estava muito confiante, não enxergava a possibilidade de não fazer o índice.

O fato da Daynara ter feito o índice numa série anterior a sua mexeu com você de algum jeito?
Não mexeu comigo porque eu já estava preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Na última seletiva para o PAN isso tinha acontecido, a Daiane [Dias] bateu meu recorde sul-americano uma série antes da minha e tinha me atrapalhado um pouco, então dessa vez eu fui preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Com o tempo que ela fez no 50 livre na terça, vi que ela estava bem e já esperava que ela pudesse fazer o índice nos 100 borboleta. Na hora em que eu vi o tempo, vi que ela tinha feito o índice e pensei que ia fazer um tempo menor ainda.

E como foi a prova e o momento que você chegou e viu o seu tempo?
Foi meio inacreditável porque eu esperava fazer o índice mas ninguém esperava que eu fosse nadar para 58, nem o meu técnico. Então foi até engraçado porque quando eu cheguei ele só ficou olhando os centésimos e quando viu o 90 achou que não tinha dado… mas todos ao redor estavam comemorando, até que outro técnico do Pinheiros virou para ele e falou: “Albertinho! Foi 58!”. Pra mim foi a mesma coisa, vi primeiro os centésimos, e quando vi que tinha sido 58.90 e tinha feito o índice, comemorei muito.

O 58.90 que você fez no Maria Lenk te coloca hoje em 24° lugar no ranking mundial dos 100 borboleta em 2008, sendo que a 8ª colocada está com 58.35, o que é pouco mais que meio segundo abaixo do seu tempo. O que você espera das Olimpíadas? Pensa em semi-final, final olímpica?
A semi-final acho que é algo provável, acredito que dá para baixar o tempo. No dia que fiz o índice eu estava muito nervosa, minha reação no bloco foi ruim, eu passei muito forte. Tenho certeza que dá para baixar, e estou treinando forte, malhando mais forte, comendo melhor… estou muito focada para Pequim. Acredito que a final será muito forte, a natação evoluiu muito nestes 4 anos. Agora tem que pensar em uma coisa de cada vez, primeiro pensar na semi-final, se conseguir, nadar a semi-final é outra história, ai com certeza vou querer entrar na final. Fora que chegando lá muda tudo, entrar no lugar, sentir aquela energia.

O que você espera da seleção brasileira de natação lá em Pequim?
Acho que o masculino está de novo com chances de medalha, principalmente com o César Cielo, que acho que a nível mundial está melhor posicionado até com relação ao Thiago Pereira. Mesmo assim, o Thiago também tem chances e o 4×100 medley está muito forte. No feminino, acredito numa final da Flávia [Delaroli] e da Joanna [Maranhão]. O revezamento 4×100 medley feminino também, acho que a gente deve classificar e lá temos chances de chegar a uma final.

Sei que ainda deve estar muito longe, mas você tem algum plano fora da natação? Pretende fazer alguma faculdade? Com o que gostaria de trabalhar?
Faculdade até tenho vontade de fazer, mas agora mesmo não dá, com esse ritmo louco de treinos não tem como levar uma faculdade. E também, se eu fizer, daqui a 4 anos não vou poder estagiar, trabalhar, então se eu fizer vai ser mais pra frente. Mas o que eu gostaria mesmo era ter um centro de estética. Adoro essas coisas, mexer com pele, cabelo, sou apaixonada por isso.

Pra terminar, queria que você deixasse uma frase, palavra, algo que te inspira.
Tem uma frase que eu gosto, ela é meio grande, mas é muito boa. É assim: “A excelência pode ser obtida se você se importa mais do que os outros julgam ser necessário; se arrisca mais do que os outros julgam ser seguro, sonha mais do que os outros julgam ser prático, e espera mais do que os outros julgam ser possível.”

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100 borboleta – Libby Tricket vence mas recorde de Inge não cai

Lisbeth Trickett-Lenton é uma velocista nata. Detém o recorde mundial das provas de 50 e 100 metros livre, sendo a primeira mulher a nadar abaixo dos 53” em piscina longa nesta prova. Campeã mundial, campeã olímpica no revezamento, campeã dos Jogos da Comunidade Britânica. Só faltava uma medalha na coleção da australiana – o ouro olímpico individual. E veio na prova de 100 borboleta, primeira final do 2º dia de provas da natação.

A prova foi disputada, mas não houve surpresas. Libby ficou com a medalha de ouro com 56”73 – apenas 6 centésimos pior do que o recorde de Inge de Bruin, estabelecido há 8 anos em Sidney. A prata foi para a americana Christine Magnuson, que nadou pela raia 5 e fez 57”10, 3º melhor tempo da história na prova. Completando o pódio, a australiana Jessica Schipper, cuja especialidade é a prova de 200 borboleta. Com a vitória de Libby, aumenta para 12 anos o tempo sem uma americana vencendo a prova em Olimpíadas.

Pelo Brasil, a prova foi até agora a melhor performance da natação canarinha nos Jogos. Gabriella Silva, carioca de 19 anos, passou pelas eliminatórias com o 5° tempo com incríveis 58”00 e entrou na final na raia 8. Já é muita coisa, ainda mais considerando a evolução da nadadora. Este ano, no Campeonato Sul-Americano disputado no Pinheiros (clube aonde treina desde 2006), Gabriella foi a primeira sul-americana a completar a prova abaixo de 1 minuto. Cinco meses depois, Gabriella já nadou para 58 cravado e não fez feio na final. Gabriella passou 27.09, o melhor parcial de sua vida, e chegou em 7º com 58.10. Competitiva, embora não escondesse a alegria e satisfação de ter realizado o sonho olímpico, ficou evidente que Gabriella agora quer mais, e a atleta confirmou: “Depois que cheguei à final, agora vou querer medalha. Eu quero mais!”. Madura, a carioca deu uma declaração que sugeriu um pouco do clima da equipe brasileira: “A gente precisa entrar mais frio e racional na competição, se não esse nervosismo excessivo vai continuar atrapalhando a gente”. Palavra de quem sabe.

100 peito masculino – Com ou sem golfinhada, Kitajima é o rei do peito

A evolução na prova de 100 peito é impressionante. Embora a barreira do 1 minuto tenha sido quebrada em 2001, pelo russo Roman Sloudnov, nenhum atleta havia feito 59” em Olimpíadas antes. Para compensar, Kitajima superou na final a barreira do 1’00 e do 59” ao mesmo tempo, marcando 58”91 e o novo recorde mundial da prova.

A final foi forte. Para classificar, 5 atletas nadaram para 59”, e o destaque foi o norueguês Alexander Dale Oen, que bateu o recorde olímpico nas eliminatórias e na semi-final. Na grande final, não conseguiu repetir a primeira colocação – assim como já havia acontecido no Campeonato Europeu – mas garantiu a prata com 59.20. O francês Hugues Duboscq completou o pódio deixando de fora Branden Hansen, antigo recordista mundial da prova. Hansen comprovou um triste estigma que pairava sobre ele. Após chegar como favorito às Olimpíadas de Atenas em duas provas, Hansen não conseguiu nadar bem e perdeu tanto os 100 como os 200 peito, provas vencidas pelo mesmo Kitajima. A redenção não veio em Pequim: além de perder do rival japonês, ficar de fora do pódio e perder o recorde mundial, Hansen não terá a chance de se redimir nos 200 peito: perdeu a vaga americana nas seletivas do país, onde ficou com o terceiro lugar.

400m livre feminino – Nem Manadou nem Pellegrini: o pódio dos 400 é britânico

Um dos mais antigos recordes olímpicos foi quebrado já nas eliminatórias. Katie Hoff, na penúlitma série, e Federica Pellegrini, na última, superaram o tempo de Janet Evans que vinha desde 1988 em Seul. Com o recorde mundial e olímpico da prova, a italiana era a favorita, mas desde o início teve dificuldades de impor seu ritmo e em nenhum momento esteve na liderança da prova.

Quem também prometia mas quase ficou de fora da final foi Laure Manadou, sua rival dentro e fora d’água – Federica namora o antigo namorado de Manadou, Luca Marin, por quem a francesa mudou de técnico e foi treinar na Itália. Depois do rompimento, fotos da nadadora nua apareceram na internet e há boatos de que isso foi obra do ex. Apesar das turbulências e de vir nadando mal nos últimos meses, Manadou sempre é um nome forte e a francesa começou os 150 metros na frente, arriscando tudo. Não aguentou. Aos poucos as britânicas e Katie Hoff chegaram perto, com destaque para a americana, que liderou a prova inteira. Mas quem achou que deixando a italiana e a francesa para trás Hoff garantiria a prova se enganou. A britânica Rebeca Adlington, que virou em quinto nos 300, fechou com fantásticos 59”86 e roubou o ouro da americana na batida de mão por apenas 7 centésimos. A felicidade britânica foi em dobro, porque a conterrânea Joanne Jackson completou o pódio, levando o bronze. As britânicas foram as que tiveram o melhor final – foram as únicas que fecharam para baixo de 1 minuto – e na chegada não acreditavam no que tinham conseguido.

4 x 100 livre masculino – O melhor revezamento da história

Nas últimas duas Olimpíadas, os revezamentos 4×100 livre masculino foram responsáveis por momentos espetaculares, mas nenhum protagonizado pelos Estados Unidos. Em Sidney-2000, os australianos venceram a prova em casa, com o fenômeno Ian Thorpe ganhando de Gary Hall na chegada. Para o Brasil, a prova foi ainda mais especial com o quarteto brasileiro fechando o pódio (foi a última medalha olímpica da natação brasileira até aqui). Quatro anos depois, prontos para a vingança, os americanos esbarraram na sensação sul-africana, que ganhou a prova e bateu o recorde mundial. Quem viu não esquece a bonita comemoração dos nadadores, que subiram na baliza e exibiram a bandeira da África do Sul. Foi inédito e muito emocionante.

Pequim não quis quebrar a tradição e proporcionou um dos momentos mais marcantes das Olimpíadas. O site da FINA, Federação Internacional de Esportes Aquáticos, descreveu o revezamento como épico, e essa talvez seja a palavra exata para o que se viu no Cubo d’Água na manhã de segunda-feira.

Os EUA chegaram com o recorde mundial de 3’12’46, batido no Mundial de Melbourne em 2007, mas seguidos de perto do revezamento francês, que tinha o melhor tempo do ano e o recordista mundial do 100 livre. Foi um duelo de gigantes. Na parcial dos 200 metros, nada menos que seis equipes estavam a frente da linha do recorde mundial, e todas as posições ainda estavam indefinidas.

Quem abriu para os Estados Unidos foi o fenômeno Michael Phelps. Embora não seja sua especialidade, Phelps já era competitivo na prova, e com 47”51 ficou a um centésimo do já antigo recorde mundial da prova. Já antigo porque na raia ao lado, o australiano Eamon Sullivan abriu para 47”24 e roubou para si o recorde que pertencia a Alain Bernard. Trunfo dos franceses, o “ex-recordista mundial” aguardava para fechar o revezamento francês, que tinha muitas chances de vitória.

As previsões se confirmavam. A França ainda estava atrás no segundo parcial, mas quando o terceiro atleta, Frederick Bousquet – que é colega de equipe do brasileiro César Cielo – caiu na água, a equipe da Europa estava na frente. Com a parcial de 46.63, Bousquet acabou fazendo o melhor tempo da França, mas não nadará a prova individual, pois ficou em 3° na seletiva nacional.

Alain Bernard caiu na frente e a medalha parecia garantida. Quem caia pelos EUA era Jason Lezak, com fama de amarelão e tendo que ultrapassar um recordista mundial. Na virada dos 350, ao ver a verdade se confirmando, foi inevitável não pensar que acabava ali a busca pelos oito ouros de Phelps. Seriam sete, quem sabe.

Mas se com 90 minutos o futebol é uma caixinha de surpresas, a natação provou que em 24”56 segundos tudo pode mudar. Lezak teve um final de prova espetacular e ganhou de Bernard no último metro, garantindo o ouro para os Estados Unidos e levando a arquibancada à loucura. O tempo fora de série do americano de 32 anos foi 46”06, extrapolando qualquer expectativa e deixando torcida, atletas e especialistas atônitos. Os americanos vibraram muito e Phelps comemorou como nunca visto. Após a prova, disse à imprensa que nunca sentira o que sentiu quando viu o resultado no placar, além de afirmar que perdeu a voz de tanto gritar. Phelps continua na briga pelas oito ouros, Lezak entra no bolo dos cotados ao ouro no 100 livre, Eamon Sullivan bate a marca de Bernard e nada menos que cinco equipes estraçalham o antigo recorde do 4×100. Aos mortais que os assistiam, restou aplaudir de pé e agradecer o privilégio de assistir um dos embates mais bonitos da história da natação.

[*] Achei esse vídeo da prova, é com narração espanhola e a imagem está bem ruim, mas dá pra ver o final sensacional do Lezak e a comemoração dos americanos.