Decepção. Essa foi a principal palavra usada pela mídia no Brasil para se referir à participação do país na ginástica olímpica em Pequim. Com o maior número de finais da história, a melhor colocação de uma atleta no individual geral, a primeira final masculina e participando pela primeira vez na final por equipes feminina, mesmo assim decepção foi a palavra de ordem.

Não que as expectativas não fossem maiores. Eram. Um pódio era uma possibilidade real, talvez até mais de um. O Brasil chegava aos Jogos com um bi-campeão mundial (Diego), uma campeã mundial (Jade), fora Daiane e Daniele, que já triunfaram em mundiais há alguns anos mas vinham com resultados menos expressivos nos últimos tempos.

Tampouco é mentira que o esporte é feito de resultados. É cruel, mas é verdade que se Cielo tivesse sido um centésimo mais lento nos 100 livre a medalha de bronze não viria e, com um emocional abalado, o 50 livre podia não trazer a medalha de ouro e a natação sairia de mais uma Olimpíada sem pódios. Mas é um “se”, e o que importa é que foi. O que importa é o resultado, essa é a verdade mais cruel do esporte, mas é a verdade (não fosse isso não veríamos cenas como a expressão desconsolada Diego ao sair do tablado após falhar na final do solo).

Mas convém lembrar que foi, de qualquer maneira, a melhor participação em Jogos (e não foi por pouco. O máximo que já havia sido conquistado foi a final do solo de Daiane e de Daniele no individual geral). Dizer que os jornais foram objetivos e imparciais, cumprindo seu dever de informar, ao estampar palavras como decepção nas manchetes, isto é mentira.

É mentira porque nunca vi uma manchete dizendo que “Lula decepciona e não cria o número de empregos que prometeu”, ou “Decepção! PSDB no Rio de Janeiro tem ligações com o narcotráfico”. Pois se fosse para dizer que algo é decepcionante, os jornais deveriam colocar em letra maiúscula que o fim da seleção permanente em Curitiba, que tantos resultados incontestáveis trouxe ao Brasil, este sim é decepcionante. Decepcionante é o governo gastar bilhões de reais com a realização do PAN e depois deixar os complexos obsoletos, sem capacidade de criação de projetos sociais de incentivo ao esporte, ou no mínimo utilização por equipes de alto rendimento – mas lógico que tem capacidade de formular uma proposta bilionária para trazer as Olimpíadas para o Brasil em 2016.

Isso é reflexo da diferenciação com que se trata a mídia esportiva e a mídia política ou econômica no Brasil. Esta mais importante e séria, aquela mais descontraída e “fácil”. Engraçado como os jornalistas esportivos são quase “obrigados” a revelar o time pelo qual torcem, enquanto os jornalistas políticos podem se abster de revelar seu voto ou suas preferências políticas. Distinção estranha. Se esporte não é sério, não sei o que é seriedade depois de ver algo ser tratado com tanta paixão como a ginástica é para Diego ou a natação para Cielo. Ser atleta é uma profissão como outra, e possui todas as desigualdades latentes que imperam no Brasil – um jogador de futebol de pouca expressão pode chegar a ganhar 10 vezes o que ganha um nadador ou corredor.

Indo além, isto é reflexo do desleixo com que se trata o esporte no Brasil e depois se exige resultados, como se uma bolsa à um ano do início dos Jogos resolvesse algum problema. É claro que o Brasil tem outros problemas prioritários, mas não se pode negar o papel social do esporte. As disfunções no investimento esportivo no Brasil não estão apenas no nível olímpico, mas na falta de politicas esportivas desde a infância, sabendo que o esporte é vital para a saúde, qualidade de vida, e melhor inserção na sociedade. São incontáveis os casos de atletas que afirmam que, não fosse o esporte, estariam sem rumo e sem perspectivas.

A mesma imprevisibilidade que traz um ouro pode fazer alguém perder uma medalha por um centésimo ou errar o movimento mais fácil. São tantos casos de gente que treinou muito, se preparou, chegou nas Olimpíadas e deu tudo certo. Tudo certo pra uns é levar o ouro, para outros é chegar no pódio, pra outros é melhorar seu tempo, pra outros é voltar a velha forma, para muitos simplesmente é estar lá. Em cada país, há mais milhares de atletas que lutaram nas seletivas nacionais e não puderam ir aos Jogos, alguns por míseros centésimos, por alguns pontinhos, por uma contusão na hora errada. Diego errou o que não podia ter errado e conheceu a face mais injusta das Olimpíadas, a impossibilidade de fazer de novo. De saber que sua segunda chance vai demorar 4 anos. Isso é o que há de mais cruel nos Jogos, mas também o que o envolve de magia e, no final das contas, faz dele o maior evento esportivo de todos os tempos.

É inaceitável que alguém trate o esporte com menos cuidado que qualquer outro assunto. Diego vai treinar, dar a volta por cima, e quem sabe daqui a 4 anos os repórteres não estarão descobrindo seu prato preferido e entrevistando seus amigos de infância que dirão que Diego “sempre foi competitivo” e é um “ótimo menino”. Se fosse verdade que a vitória de Cielo é a vitória de 180 milhões de brasileiros, a derrota de Diego deveria ser a derrota dos mesmos milhões de pessoas. Que tenha cabeça boa pra aguentar toda essa pressão – principalmente a maior de todas, que é dele mesmo – e volte com tudo.

Uma foto de Diego feliz, porque ninguém é melhor ou pior por causa de 9 décimos.