Depois de ser prata nas Olimpíadas de 2004 e na Copa do Mundo de 2007, a seleção feminina de futebol do Brasil chegou às Olimpíadas com chances de chegar ao ouro. Mas ainda não foi dessa vez. Após passar pela forte campeã mundial Alemanha nas semi-finais, as meninas do Brasil tinham pela frente a seleção norte-americana, algoz de Atenas. Mas as brasileiras já haviam batido os EUA em um jogo importante, nas semi-finais da Copa do Mundo, em 2007. Em Pequim, pela primeira vez chegavam a final como favoritas ao ouro.

Das 18 jogadoras a seleção norte-americana, só 7 estiveram em Atenas. No caso do Brasil, são 10 as remanescentes da equipe de 2004, entre elas a jogadora Marta, eleita pela Fifa como a melhor jogadora do mundo em 2006 e 2007. Os perfis das duas equipes são diferentes também. Um rápido levantamento mostra que na seleção americana nem todas as jogadoras atuam nos EUA, mas todas passaram pela Liga Universitária do país. E as que não jogam nos Estados Unidos estão em países que mantém ligas femininas fortes e estruturadas, como Suécia e Alemanha. Pelo Brasil as coisas são diferentes. Das 18 jogadoras que estiveram em Pequim, só 8 atuam fora do país. São 3 jogadoras na Suécia: Marta no UEMA e Cristiane e Daniela Alves no Linkoping. O país possui um dos campeonatos mais fortes do mundo, o deste ano reunindo 12 clubes e mais de 40 jogadoras estrangeiras. Outro país de destino das brasileiras é a Espanha, que hoje só conta com a goleira Andréia no Prainsa, mas já teve passagens de jogadoras pelo Rayo Vallecano e Sporting Huevla. Completam os destinos a Áustria, Dinamarca, França e Japão, onde joga Pretinha, a mais antiga jogadora da seleção. A atacante defende as cores verde-amarelas desde 1991 e participou de todas as quatro Olimpíadas desde que foi introduzido o futebol feminino nos Jogos. O balanço de Pretinha nas Olimpíadas é o balanço da seleção brasileira: duas vezes 4° lugar e duas vezes prata, o que indica que o Brasil sempre chegou as semi-finais, mas nunca venceu nos jogos finais (disputa do bronze ou do ouro).

As outras 8 jogadoras que não estão no exterior estão espalhadas pelo Brasil. Quatro delas (Érika, Ester, Francielle e Maurice) jogam no Santos Futebol Clube, equipe do litoral paulista que é uma das poucas que mantém uma equipe de futebol feminino. O Santos, cujo técnico Kleiton Lima é também o treinador da seleção brasileira sub-20, mantém não só a equipe principal como uma escolinha para as categorias de base. Iniciado em 1997, o trabalho rendeu títulos paulistas, da Copa Mercosul, e a primeira colocação na Liga Nacional de 2007. Na ocasião, o time bateu a equipe do Botucatu, também incentivadora do esporte e clube pelo qual passaram muitas jogadoras de destaque da seleção. Quem joga lá atualmente é Formiga, a segunda atleta com mais tempo de seleção, atuando pelo Brasil desde 1995.

O Corinthians também montou há poucos anos uma equipe de futebol feminino. Outros clubes que se destacam são o Ferroviário, Juventus, Sport Recife e Saad, sendo este um dos principais times da história do futebol feminino no Brasil. Fundado em 1961, ele começou a ter equipes de mulheres em 1985. Localizado no ABC paulista, o time esbarrou na Federação Paulista de Futebol, que não permitia inscrições de equipes femininas. Graças a uma parceria com a Federação do Mato Grosso do Sul, o clube conseguiu se inscrever e passou a disputar torneios no Brasil e no exterior. Há poucas informações sobre esses torneios, que não eram organizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O primeiro torneio feminino do Brasil foi a Taça Brasil, organizada pelo presidente da equipe do Radar, do Rio de Janeiro, em 1983. Disputado até 1989 e sempre vencido pelo Radar, reunia poucas equipes e não era considerado profissional. Aliás, apesar de algumas mudanças, muito continua igual. O principal torneio feminino do Brasil, a Liga Nacional, é organizado por uma entidade administrativa que leva o mesmo nome do torneio. Fundada em 1999, organiza campeonatos para jogadores amadores , e não há um número certo de equipes que participarão dos campeonatos, tudo dependendo do contexto de cada ano. O único torneio organizado pela CBF é a Copa do Brasil de Futebol Feminino, mas o destaque mínimo dado no site da Confederação corresponde a atenção dada pelos dirigentes.

O cenário mostra que o confronto principal já estava perdido pelas jogadoras antes de entrarem em campo. Não se trata de tentar alçar, de uma hora para outra, o futebol feminino à condição que o masculino possui, pois isso esbarra em falta de interesse público e do público, além de um preconceito que ainda não acabou- mas convenientemente desaparece na hora de torcer por mais um ouro no quadro de medalhas. Não dá pra imaginar, de qualquer forma, que o futebol feminino poderia ou pode ocupar a visibilidade que tem o masculino, mas a CBF poderia ao menos dar um pouco mais de dignidade às jogadoras que representam tão bem o país (ultimamente melhor que os homens, aliás). Tanto que declarações dizendo que a idéia é formar um campeonato que traga as maiores estrelas de volta para o Brasil é ilusória. Quem consegue ir para um time forte do exterior deve fazer isso mesmo – como o fazem os homens – mas para quem fica, falta um campeonato decente, cumprir promessas de anos olímpicos, e um mínimo de estrutura. As jogadoras do Brasil jogam com duas partes do tripé de qualquer atleta: talento e treino. Falta só apoio.

A final do vôlei masculino no último dia dos Jogos Olímpicos era esperada como um duelo de titãs. De um lado, a seleção brasileira, campeã olímpica em 2004 e uma das mais vitoriosas de todos os tempos, chegando a sua 25ª final de 27 torneios disputados em 8 anos. Do outro lado, Estados Unidos, o time responsável por tirar o Brasil de uma dessas finais, ainda este ano, no Brasil. A seleção americana, na visão dos próprios brasileiros, era a que mais sabia jogar contra o Brasil, tendo estudado exaustivamente as jogadas e táticas da seleção.

Mas um duelo só se torna histórico quando tem elementos externos, que realçam o que o jogo na quadra já possui de dificuldades, emoção e superação. Mais do que esse currículo recheado de vitórias e do que o histórico de confrontos, o jogo envolvia duas seleções cuja marca era uma equipe muito coesa e problemas superados pelo conjunto.

No caso americano, o que se via em quadra era a melhor seleção do país nos últimos 20 anos. Isto porque desde o bi-campeonato em 1984-1988 (no primeiro ano, em cima do Brasil e de sua “Geração de Prata”, com a participação Bernardinho, hoje técnico brasileiro) os Estados Unidos não chegavam a uma final olímpica. A equipe caiu muito desde essas conquistas e foi bronze em Barcelona (ocasião em que o Brasil ganhou seu primeiro ouro olímpico), 9° em Atlanta, 11° em Sidney e 4° em Atenas. Em três dessas ocasiões, estava presente Lloy Ball, peça importante na campanha olímpica, e o primeiro jogador norte-americano a participar de quatro Olimpíadas. A seleção dos EUA havia ganhado a Liga Mundial em junho e vinha muito focada em bater todos os adversários, principalmente o mais forte deles, a referência, o mais estudado nos últimos quatro anos: a seleção do Brasil. E já nos Jogos, uma fatalidade abalou a equipe americana. O sogro do treinador Hugh McCutcheon foi morto por um chinês um dia após a cerimônia de abertura, e o treinador ficou ausente dos três primeiros jogos, acompanhando a esposa e cuidando da sogra, que também fora atacada e corria risco de vida. McCutcheon voltou à equipe, com o consentimento da família, para terminar a saga que começara há quatro anos. Na final, os jogadores entrariam com as letras iniciais dos sogros do treinador gravadas no tênis, em sinal de solidariedade à família de quem os havia guiado até ali.

Pelo Brasil, chegava-se à segunda final olímpica em 8 anos, após um ciclo invejável, mas que no final de 2007 ganhara contornos dramáticos após a saída do levantador Ricardinho, um dos melhores do mundo na posição, cortado pelo técnico Bernardinho com o consentimento dos jogadores. Muito se especulou sobre a saída, e mesmo com um levantador de extrema qualidade – Marcelinho – a falta do jogador ainda é apontada por muitos como um fator de desgaste. Desgaste não só pela sua falta nas quadras, mas principalmente pelos problemas que o jogador teria gerado dentro do que costuma ser chamada “Família Bernardinho”. A saída de Ricardinho foi uma opção do treinador, em prol da coesão do grupo e de problemas internos que, por mais que se fale, só os jogadores sabem quais são. Além das táticas e jogadas vitoriosas construídas nesses 8 anos, uma das marcas dessa seleção é o alto grau de entrosamento, ajuda mútua e detalhes internos ao grupo, e só ao grupo. Bernardinho falou muito de um pacto, que era só deles. Por fim, as Olimpíadas marcavam o último jogo de muitos jogadores da seleção. Anderson e Gustavo, antes dos Jogos, já anunciavam que seria sua última participação pelo Brasil.

Em meio a esse cenário, as seleções entraram em quadra nervosas, mas com uma garra poucas vezes vista para jogar. Os dois queriam muito o ouro. E quem saiu na frente foi o Brasil, que dominou o primeiro set. Parecia até que seria fácil. Mas os Estados Unidos voltaram com tudo no segundo set e, com atuação fantástica de Clayton Stanley, a seleção chegou a abrir 8×1 diante de um Brasil que errou muito. O bloqueio dos EUA funcionavam na maioria das bolas e houve muitos erros de saque de ambos os lados. Os EUA fecharam o 2° set e no 3° ficaram a frente o tempo todo. No 4° set, o Brasil seguiu na frente até os 20 pontos, e tinha chances de ganhar e levar o jogo para o tie-break. Mas errou bolas decisivas e mesmo com mudanças de Bernardinho – que em uma jogada muito arriscada, colocou Bruninho para sacar no lugar de Giba, ao que o levantandor correspondeu – o Brasil não conseguiu segurar o placar e os Estados Unidos levaram o set, a partida, o ouro. Os americanos se abraçavam e comemoravam a consagração de quatro anos de muito treino e esforço. Por mais que qualquer fator extra-quadra possa ter influenciado, a verdade é que os americanos foram superiores no jogo, e os próprios jogadores brasileiros disseram isso.

Ao final do jogo, alguns brasileiros choraram, principalmente Bruninho e Marcelinho. Mas mais do que pela derrota, a tônica dos jogadores após a partida era de exaltar o orgulho que era participar daquela equipe. Marcelinho falou tudo quando disse que a prata não tinha sabor de ouro, mas de prata mesmo, e ainda assim era muito suada. O próprio técnico Bernardinho, sempre preocupado e, em suas próprias palavras, “neurótico”, chorou ao falar sobre o time de jogadores que teve a honra de treinar.

As dúvidas agora ficam com relação ao futuro da equipe. Não se sabe ao certo quem continuará na seleção. Gustavo já declarou que a decisão fora tomada no começo do ano e não tem retorno. Giba disse que com certeza fica até 2010, mas depois disso não tem nada definido. O próprio Bernardinho, apesar de expressar o desejo de ajudar na renovação do time e de falar que não se imagina longe de tudo isso, não sabe se continuará no comando de umas das seleções mais vitoriosas que o Brasil já teve. Fica a certeza de que quem for fará falta e, mesmo que outras gerações cheguem, essa ficará sempre lembrada como nossa geração de ouro.

[*] Vídeo de Bernardinho, emocionado, falando sobre seus jogadores.

A entrevista abaixo foi realizada antes de Gabriella Silva embarcar para sua primeira Olimpíada, onde conquistou o sétimo lugar no 100 metros borboleta, única final feminina do Brasil em Pequim. Gabriella me falou sobre o início no esporte, o treinamento, as expectativas para Pequim e sua paixão pela natação.

Matéria publicada também no site da BestSwimming

Beatriz: Quando e por que você começou a nadar?
Gabriella: Nadar eu comecei com 3 anos, mas competir mesmo foi com 6. Eu comecei por causa do meu pai, ele achava muito importante os filhos praticarem esporte, e sempre achou a natação o esporte mais completo.

Onde você começou a treinar?
A maior parte da minha vida nadei no Fluminense, depois fui para o Flamengo em 2003 e fiquei 2 anos. Em 2005 fui para o Minas e desde 2006 estou no Pinheiros.

Como foi tomar a decisão de sair de casa tão cedo?
Foi muito difícil, mas tudo aconteceu muito rápido. Foi no final do ano de 2004, em dezembro, que decidi sair do Rio porque via que o nível da natação carioca estava caindo, as competições ficando mais fracas. Ainda tinha 15 anos, minha mãe ficou desesperada, como a filhinha dela ia embora de casa assim! Meu pai me incentivou muito, e foi tudo muito rápido, conversei com o técnico do Minas, eles mandaram a proposta, e acabei indo para Belo Horizonte.

E como foi a experiência lá?
Olha, o primeiro ano foi meio complicado. O treinamento era muito diferente, a cidade era muito diferente… mesmo sendo metrópole como o Rio, BH era mais parada, com clima de interior. Foi difícil ficar longe da minha família, senti muita falta da minha irmã, com quem tenho uma ligação muito forte… isso tudo atrapalhou e eu acabei não me adaptando ao Minas.

Em algum momento você pensou em voltar para o Rio?
Pensei. Mas não sou uma pessoa que desiste facilmente. Ai no final do ano surgiu a proposta do Pinheiros. No ano anterior, quando eu sai do Rio, além do Minas eu tinha cogitado ir para o Pinheiros também, mas eles demoraram muito para fazer a proposta e eu acabei indo pro Minas. No final de 2005 conversei com o Albertinho e tudo se encaixou.

Depois da sua chegada no Pinheiros, em menos de 6 meses você bateu o recorde sul-americano dos 100 borboleta, um dos mais antigos da natação feminina, que já durava mais de 10 anos. Fale um pouco sobre esse começo.
Eu amei e amo a equipe do Pinheiros. Tudo deu certo lá: o treino do Albertinho, a equipe, até a cidade de São Paulo, apesar de eu preferir o Rio, é uma cidade que eu gosto. E o principal mesmo foi o meu técnico. Eu confio demais no Albertinho, no trabalho dele, deu muito certo pra mim. O Pinheiros é uma equipe muito forte, dois terços da seleção brasileira vem de lá. O recorde sul-americano já era um objetivo, mas acabou sendo uma surpresa sair no dia que saiu, porque eu tinha machucado o pé antes da competição. Por causa disso, fiquei 2 semanas parada, então não estava imaginando batê-lo naquele momento. Mas eu sou muito competitiva, e como falei, não sou de desistir fácil das coisas.

Falando em lesão, você já teve uma lesão no ombro, e nadando borboleta, essa região deve ficar bem sobrecarregada. Um artigo da BestSwimming de 2007 falava sobre nadadores de borboleta que mesmo sendo especialistas não treinam tanto o estilo, e você aparece como um dos exemplos. Como é seu treinamento de borboleta?
Pra falar a verdade, acho que a gente, como atleta profissional, se testa toda hora. Não só na competição, mas no treino, é normal sentir muita dor, e eu estou sempre superando meus limites, lutando contra a dor. Um pouco antes do Maria Lenk, inclusive, eu tive uma lesão nas costas e sinto muita dor no treino, mas nem quis tratar e fazer exames antes da seletiva para não me preocupar e acabar atrapalhando na conquista do índice. Agora que passou a competição estou fazendo fisioterapia, e sinto bastante dor, mas como falei isso é normal do atleta. Quanto ao borboleta, realmente é um estilo muito cansativo, então acabo nadando o estilo mais nas séries mais de intensidade. Nas séries com maior metragem, acabo nadando crawl, não dá pra fazer longas distâncias com o borboleta.

Aproveitando que você falou sobre o treinamento, como é sua rotina de treinos?
Isso depende muito da fase de treinamento. Mas basicamente treino de segunda a sábado, fazendo nove sessões de treino dentro d’água (com dois treinos na terça, quarta e sexta). Além disso, segunda, quarta e sexta faço musculação, e na quinta uma sessão de ginástica. A quilometragem varia de acordo com a fase. Durante o período de base, para pegar resistência, chega a 43km por semana. No específico, varia de 35km para menos. E no polimento, que costuma ser uma semana antes das competições, é bem mais leve e tem semana que a gente chega a nadar só 15km durante a semana inteira.

Voltando para as competições, como foi a experiência do PAN em 2007? Foi bem marcante a sua imagem chorando no pódio, e a final que foi muito disputada, com você e a Daiene Dias lutando pela medalha de bronze.
No PAN, eu tinha combinado com meu técnico de não forçar nas eliminatórias nem na semi-final, para guardar energia mesmo para a final. O que aconteceu foi que eu fiquei muito nervosa na final, nadei a prova toda errada, passei muito fraco, na parcial do 50 metros eu estava em 5°. Quando eu virei, ouvi todo mundo gritando, e eu sabia que estavam gritando pra mim e pra Daiene, mas que também era para mim! De repente deu um estalo, comecei a fazer muita força e consegui, foi por muito pouco. Comemorei ali, mas ainda não tinha caído a ficha. Só no pódio, depois, quando eu subi, recebi a medalhe e vi todo mundo me aplaudindo, caiu a ficha, e comecei a chorar. Toda minha família estava lá, foi uma competição muito especial.

No Sul-Americano deste ano, que aconteceu no Pinheiros, foi quando ficou claro para todos que o índice era uma realidade. Como foi isso pra você? Já esperava abaixar de 1 minuto? Já olhava o índice mais como objetivo do que sonho, ou foi só a partir dali que isso aconteceu?
Em 2007, apesar do resultado do PAN, eu não estava treinando muito bem, não estava conseguindo fazer os tempos que sempre fazia. Já queria ter nadado para 59 no open, no final do ano. Não deu, mas a competição acabou sendo boa mesmo assim porque recuperei meu recorde sul-americano e conquistei ali a classificação para o Campeonato Sul-Americano. Na competição, acabei conseguindo fazer o 59, que era uma coisa que eu queria muito, ser a primeira na América do Sul a baixar de um minuto. Por ter sido naquela competição, para a qual eu não estava treinada, onde só esperava chegar perto do meu melhor, ai foi uma surpresa. Mas quanto ao índice, já era um objetivo, algo que eu queria, mas a partir dali acho que foi quando caiu a ficha que eu podia. Eu digo que naquela competição, depois do 59”79, ficando a 44 centésimos do índice, as Olimpíadas deixaram de ser uma possibilidade e passaram a ser uma probabilidade.

E como foi esperar até maio, no Troféu Maria Lenk?
Foi horrível. Faltando duas semanas eu não queria ouvir falar de Olimpíadas, e coincidiu bem com a época que começou a aparecer na televisão que faltavam 100 dias para Pequim. Eu chorava toda hora, qualquer coisa que eu ouvia, pensava como eu queria estar lá, e o tempo não chegava, eu queria nadar logo!

Nesse período costumam passar mil coisas na cabeça do atleta, medo, raiva, alguns até começam a se perguntar se vale a pena isso tudo. Em algum momento algo desse tipo passou pela sua cabeça?
Nunca. Eu amo muito tudo isso que eu faço, não consigo imaginar a minha vida sem natação. Acho que isso tudo faz parte, o nervosismo é chato, mas faz parte. E acho que de algum jeito a recompensa sempre vem, sempre vale a pena.

E como foi o dia do índice? Conseguiu dormir bem na véspera?
Na noite de terça para quarta eu dormi mal, queria fazer o índice logo na eliminatória que seria na quarta à tarde. A partir do almoço até a hora da prova eu fiquei ‘acordadona’, dava pra ver meu olho arregalado, não queria fazer nada. Mas apesar de nervosa eu estava muito confiante, não enxergava a possibilidade de não fazer o índice.

O fato da Daynara ter feito o índice numa série anterior a sua mexeu com você de algum jeito?
Não mexeu comigo porque eu já estava preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Na última seletiva para o PAN isso tinha acontecido, a Daiane [Dias] bateu meu recorde sul-americano uma série antes da minha e tinha me atrapalhado um pouco, então dessa vez eu fui preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Com o tempo que ela fez no 50 livre na terça, vi que ela estava bem e já esperava que ela pudesse fazer o índice nos 100 borboleta. Na hora em que eu vi o tempo, vi que ela tinha feito o índice e pensei que ia fazer um tempo menor ainda.

E como foi a prova e o momento que você chegou e viu o seu tempo?
Foi meio inacreditável porque eu esperava fazer o índice mas ninguém esperava que eu fosse nadar para 58, nem o meu técnico. Então foi até engraçado porque quando eu cheguei ele só ficou olhando os centésimos e quando viu o 90 achou que não tinha dado… mas todos ao redor estavam comemorando, até que outro técnico do Pinheiros virou para ele e falou: “Albertinho! Foi 58!”. Pra mim foi a mesma coisa, vi primeiro os centésimos, e quando vi que tinha sido 58.90 e tinha feito o índice, comemorei muito.

O 58.90 que você fez no Maria Lenk te coloca hoje em 24° lugar no ranking mundial dos 100 borboleta em 2008, sendo que a 8ª colocada está com 58.35, o que é pouco mais que meio segundo abaixo do seu tempo. O que você espera das Olimpíadas? Pensa em semi-final, final olímpica?
A semi-final acho que é algo provável, acredito que dá para baixar o tempo. No dia que fiz o índice eu estava muito nervosa, minha reação no bloco foi ruim, eu passei muito forte. Tenho certeza que dá para baixar, e estou treinando forte, malhando mais forte, comendo melhor… estou muito focada para Pequim. Acredito que a final será muito forte, a natação evoluiu muito nestes 4 anos. Agora tem que pensar em uma coisa de cada vez, primeiro pensar na semi-final, se conseguir, nadar a semi-final é outra história, ai com certeza vou querer entrar na final. Fora que chegando lá muda tudo, entrar no lugar, sentir aquela energia.

O que você espera da seleção brasileira de natação lá em Pequim?
Acho que o masculino está de novo com chances de medalha, principalmente com o César Cielo, que acho que a nível mundial está melhor posicionado até com relação ao Thiago Pereira. Mesmo assim, o Thiago também tem chances e o 4×100 medley está muito forte. No feminino, acredito numa final da Flávia [Delaroli] e da Joanna [Maranhão]. O revezamento 4×100 medley feminino também, acho que a gente deve classificar e lá temos chances de chegar a uma final.

Sei que ainda deve estar muito longe, mas você tem algum plano fora da natação? Pretende fazer alguma faculdade? Com o que gostaria de trabalhar?
Faculdade até tenho vontade de fazer, mas agora mesmo não dá, com esse ritmo louco de treinos não tem como levar uma faculdade. E também, se eu fizer, daqui a 4 anos não vou poder estagiar, trabalhar, então se eu fizer vai ser mais pra frente. Mas o que eu gostaria mesmo era ter um centro de estética. Adoro essas coisas, mexer com pele, cabelo, sou apaixonada por isso.

Pra terminar, queria que você deixasse uma frase, palavra, algo que te inspira.
Tem uma frase que eu gosto, ela é meio grande, mas é muito boa. É assim: “A excelência pode ser obtida se você se importa mais do que os outros julgam ser necessário; se arrisca mais do que os outros julgam ser seguro, sonha mais do que os outros julgam ser prático, e espera mais do que os outros julgam ser possível.”

Decepção. Essa foi a principal palavra usada pela mídia no Brasil para se referir à participação do país na ginástica olímpica em Pequim. Com o maior número de finais da história, a melhor colocação de uma atleta no individual geral, a primeira final masculina e participando pela primeira vez na final por equipes feminina, mesmo assim decepção foi a palavra de ordem.

Não que as expectativas não fossem maiores. Eram. Um pódio era uma possibilidade real, talvez até mais de um. O Brasil chegava aos Jogos com um bi-campeão mundial (Diego), uma campeã mundial (Jade), fora Daiane e Daniele, que já triunfaram em mundiais há alguns anos mas vinham com resultados menos expressivos nos últimos tempos.

Tampouco é mentira que o esporte é feito de resultados. É cruel, mas é verdade que se Cielo tivesse sido um centésimo mais lento nos 100 livre a medalha de bronze não viria e, com um emocional abalado, o 50 livre podia não trazer a medalha de ouro e a natação sairia de mais uma Olimpíada sem pódios. Mas é um “se”, e o que importa é que foi. O que importa é o resultado, essa é a verdade mais cruel do esporte, mas é a verdade (não fosse isso não veríamos cenas como a expressão desconsolada Diego ao sair do tablado após falhar na final do solo).

Mas convém lembrar que foi, de qualquer maneira, a melhor participação em Jogos (e não foi por pouco. O máximo que já havia sido conquistado foi a final do solo de Daiane e de Daniele no individual geral). Dizer que os jornais foram objetivos e imparciais, cumprindo seu dever de informar, ao estampar palavras como decepção nas manchetes, isto é mentira.

É mentira porque nunca vi uma manchete dizendo que “Lula decepciona e não cria o número de empregos que prometeu”, ou “Decepção! PSDB no Rio de Janeiro tem ligações com o narcotráfico”. Pois se fosse para dizer que algo é decepcionante, os jornais deveriam colocar em letra maiúscula que o fim da seleção permanente em Curitiba, que tantos resultados incontestáveis trouxe ao Brasil, este sim é decepcionante. Decepcionante é o governo gastar bilhões de reais com a realização do PAN e depois deixar os complexos obsoletos, sem capacidade de criação de projetos sociais de incentivo ao esporte, ou no mínimo utilização por equipes de alto rendimento – mas lógico que tem capacidade de formular uma proposta bilionária para trazer as Olimpíadas para o Brasil em 2016.

Isso é reflexo da diferenciação com que se trata a mídia esportiva e a mídia política ou econômica no Brasil. Esta mais importante e séria, aquela mais descontraída e “fácil”. Engraçado como os jornalistas esportivos são quase “obrigados” a revelar o time pelo qual torcem, enquanto os jornalistas políticos podem se abster de revelar seu voto ou suas preferências políticas. Distinção estranha. Se esporte não é sério, não sei o que é seriedade depois de ver algo ser tratado com tanta paixão como a ginástica é para Diego ou a natação para Cielo. Ser atleta é uma profissão como outra, e possui todas as desigualdades latentes que imperam no Brasil – um jogador de futebol de pouca expressão pode chegar a ganhar 10 vezes o que ganha um nadador ou corredor.

Indo além, isto é reflexo do desleixo com que se trata o esporte no Brasil e depois se exige resultados, como se uma bolsa à um ano do início dos Jogos resolvesse algum problema. É claro que o Brasil tem outros problemas prioritários, mas não se pode negar o papel social do esporte. As disfunções no investimento esportivo no Brasil não estão apenas no nível olímpico, mas na falta de politicas esportivas desde a infância, sabendo que o esporte é vital para a saúde, qualidade de vida, e melhor inserção na sociedade. São incontáveis os casos de atletas que afirmam que, não fosse o esporte, estariam sem rumo e sem perspectivas.

A mesma imprevisibilidade que traz um ouro pode fazer alguém perder uma medalha por um centésimo ou errar o movimento mais fácil. São tantos casos de gente que treinou muito, se preparou, chegou nas Olimpíadas e deu tudo certo. Tudo certo pra uns é levar o ouro, para outros é chegar no pódio, pra outros é melhorar seu tempo, pra outros é voltar a velha forma, para muitos simplesmente é estar lá. Em cada país, há mais milhares de atletas que lutaram nas seletivas nacionais e não puderam ir aos Jogos, alguns por míseros centésimos, por alguns pontinhos, por uma contusão na hora errada. Diego errou o que não podia ter errado e conheceu a face mais injusta das Olimpíadas, a impossibilidade de fazer de novo. De saber que sua segunda chance vai demorar 4 anos. Isso é o que há de mais cruel nos Jogos, mas também o que o envolve de magia e, no final das contas, faz dele o maior evento esportivo de todos os tempos.

É inaceitável que alguém trate o esporte com menos cuidado que qualquer outro assunto. Diego vai treinar, dar a volta por cima, e quem sabe daqui a 4 anos os repórteres não estarão descobrindo seu prato preferido e entrevistando seus amigos de infância que dirão que Diego “sempre foi competitivo” e é um “ótimo menino”. Se fosse verdade que a vitória de Cielo é a vitória de 180 milhões de brasileiros, a derrota de Diego deveria ser a derrota dos mesmos milhões de pessoas. Que tenha cabeça boa pra aguentar toda essa pressão – principalmente a maior de todas, que é dele mesmo – e volte com tudo.

Uma foto de Diego feliz, porque ninguém é melhor ou pior por causa de 9 décimos.

200 costas feminino – Kirsty Convetry finalmente é ouro!

Por muitos anos uma das provas mais fracas da natação, o 200 costas ganhou destaque com a chegada da zimbabuana Kirsty Convetry. Campeã em 2004, Kirsty bateu um recorde mundial que permanecia desde 1991. Este ano, na seletiva americana, Margareth Hoelzer baixou ainda mais a marca e prometia uma disputa bonita em Pequim.

Após três pratas na competição, Convetry chegou a sua principal prova com muita vontade de garantir um ouro. Heroína nacional no Zimbábue, a atleta queria ouvir seu hino pelo menos uma vez. Nadando pela 4, após bater o recorde olímpico nas semi-finais, Convetry liderou desde o começo e virou todas as parciais na frente. Hoelzer, pela 2, virou sempre mais de 1 segundo atrás e ainda tentou chegar no final, mas a zimbabuana levou a melhor. À frente da linha do recorde mundial por toda prova, Convetry chegou para 2’05”24, retomando a melhor marca do mundo e vibrando muito com seu primeiro ouro em Pequim e o bi-campeonato na prova.

Em segundo, Hoelzer marcou 2’06”23 e levou a prata. Reiko Nakamura, do Japão, repetiu a colocação das Olimpíadas de Atenas e dos Mundiais de 2005 e 2007, ficando com o bronze.

100 borboleta masculino – 1 centésimo

Apontada como uma das provas mais difíceis de Michael Phelps rumo aos 8 ouros, o 100 metros borboleta masculino era esperada como uma das maiores disputas da competição. De um lado, Ian Crocker, que bateu Phelps no Mundial de 2003 e desde então detém o recorde mundial. Do outo, Milorad Cavic, atleta que representou três países com nomes “diferentes”, devido a fragmentações e questões geopolíticas pelas quais passou (Iugoslávia em 2000, Sérvia e Montenegro em 2004 e agora, Sérvia). No meio, Michael Phelps, recordista olímpico, em busca do seu 7º ouro na competição.

Cavic nadou forte nas eliminatórias e semi-finais, chegando à finalíssima prometendo estragar com a festa de Phelps. Saiu bem e nadou forte desde o começo, virou para 23”42, abaixo do recorde mundial, e mesmo sabendo que Phelps volta muito bem, parecia que não ia dar para o americano. Phelps foi apenas o 7º na parcial do 50m, e Crocker em segundo parecia pronto para sua revanche.

Mas Phelps voltou mais forte do que nunca. Pela câmera sub-aquática, dava pra ver o atleta acelerar o ciclo de braçadas e buscar o sérvio que ainda liderava. Parecia que iam faltar 5m para que o americano levasse. Mas não faltou, sobrou. Sobrou um centésimo de diferença, 1 centésimo para sete outos e um centésimo para 1 milhão de dólares – prêmio da atleta por se igualar a Mark Spitz.

Quem viu a olho nu não acreditou. O resultado do placar desafiou a lógica, mas quem ousaria duvidar de Michael Phelps, que desafia a ciência e o senso comum, com sua virada e recuperação pós-prova inexplicáveis. Pela câmera de baixo d’água é possível ver a vitória.

A federação sérvia resolveu protestar do resultado, inconformada com o que o placar anunciava. Michael Phelps é patrocinado pelas empresas que fazem o equipamento de placar eletrônico, o que poderia aumentar possíveis suspeitas. Mas a hipótese era muito improvável, não daria tempo nem havia condições de se forjar algum tipo de resultqaod. Tanto que Cavic reconheceu a derrota e a federação desistiu do protesto. Phelps chegou melhor e encaixou a chegada, enquanto Cavic deslizou e perdeu ali, na unha.

O recorde mundial não caiu, mas com 50”58 Phelps retomou o recorde olímpico e se tornou o maior nadador de todos os tempos. Já era, considerando-se a época em que nada, onde a especialização em cada prova é cada vez maior, algo que existia em escala muito menos na época de Mark Spitz. Phelps vibrou muito e recebeu um abraço de Crocker, que, também por um centésimo, ficou de fora do pódio. Quem levou o bronze foi Andrew Lauterstein, da Austrália, com 51”12.

800 livre feminino – Nova supremacia nas provas de fundo

Recorde mais antigo da natãção mundial, o 800 livre era a última marca do mito Janet Evan a ser batida. Com nomes como Kate Ziegler, Katie Hoff, Rebecca Adlington e Alessia Filippi, todas com tempos muito próximos, a briga prometia ser boa e o recorde balançava pela primeira vez.

Entretanto, surpresas nas eliminatórias deixaram todos de boca aberta. Não só Hoff, que fazia uma competição ruim, como Kate Zigler, que foi a Pequim só para nadar esta prova, ficaram de fora. Foi uma das únicas provas da competição sem americanas na final. Ai Shibata, campeã em 2004, confirmou a má fase e também não classificou. Rebecca Adlington, campeã dos 400 metros, tinha o caminho livre pela frente e era a franca favorita na final.

E o favoritismo se confirmou. Não só Adlington liderou desde os primeiros 50 como virou sempre abaixo do histórico recorde de Evans. Na parcial dos 500, a inglesa passou 5’07, 3 segundos abaixo do recorde. A diferença se manteve e Adlington chegou para 8’14”10, baixando o recorde em 2 segundos e se tornando o novo nome a ser batido nas provas de fundo.

Em 2º, Alessia Filippi da Itália, que igualou seu melhor tempo. Uma bela disputa pelo 3º lugar deixou de fora Camelia Potec, romena que foi campeã olímpica de 200 livre em Atenas e ficou grande parte da prova na segunda colocação. Lotte Friis, da Dinamarca, garantiu o bronze com 8’23”03, apenas 8 centésimos a frente da romena.

50 livre masculino – Cielo é campeão olímpico e encanta o mundo

Em 1992, Fernando Scherer ficou a um mísero centésimo do índice olímpico nos 50 livre. Assistiu, da TV, seu compatriota Gustavo Borges levar a prata nos 100 metros livre. Quatro anos depois, foi a vez dos centésimos atuarem a seu favor depois de empatar em 8º lugar. Scherer disputou e levou a última vaga da final, se classificando para nadar na raia 8. Um dia depois, foi bronze olímpico. Scherer ainda nadou mais duas Olimpíadas, ganhou uma medalha e, no Pan de 2003, foi tri-campeão das Américas nos 50 livre. Na época, não descartava nadar o Pan do Rio, e chegou a nadar os Jogos de Atenas. Mas logo percebeu que o trono brasileiro dos 50 livre não era mais seu. Se retirou da natação sabendo que, mesmo se quisesse, agora seria muito mais difícil ser o melhor do país na prova. Surgia César Augusto Cielo Filho.

Poucos anos depois, Scherer é chamado por Cielo de seu “empresário”, e é o responsável pela profissionalização do atleta. E na manhã de céu azul e limpo, em 15 de agosto de 2008, Scherer ficou orgulhoso de ver que, do trono brasileiro, seu pupilo chegou ao trono do mundo.

A prova tinha a dose de imprevisibilidade intrínseca ao esporte e específica do 50 livre, a prova mais rápida da natação. Cielo bateu o recorde olímpico nas semi-finais, com 21”34, mas nada estava garantido. O recordista mundial Eamon Sullivan estava na raia 7 e vinha com muita vontade após perder o 100 livre para Alain Bernard. O francês, por sua vez, classificou com o segundo tempo e prometia uma disputa com Cielo nas raias centrais. Pela 1, Amaury Leveaux, que conseguiu a segunda vaga francesa tirando da prova Frederick Bousquet, companheiro de treino de Cielo. Stefan Nystrand (Suécia) , Ben Wildman-Tobriner (EUA) , Roland Schoeman (África do Sul) e Ashley Callus (Austrália) completavam a série mais forte já vista nos 50 livre. A diferença do tempo de classificação entre Cielo e o nadador da raia 8 era de apenas 47 centésimos.

Cielo entrou na final fazendo o sinal da cruz. Nervoso, mas tanto quanto os outros sete que o acompanhavam na final. Após serem apresentados, os nadadores mais rápidos do planeta se preparavam em busca da prova perfeita. Uma piscina, só ida, uma respirada, nenhuma talvez. Cielo rangeu os dentes desde a largada e nadou assim a prova inteira. Como que se lembrando e mostrando para a câmera sub-aquática que ninguém queria aquele ouro mais que ele.

A prova foi rápida e Cielo foi perfeito. Saiu bem, liderou, só precisava chegar certo. E chegou, certo e certeiro para o ouro, o primeiro do Brasil em Pequim e o primeiro da natação brasileira em toda sua história. Minutos depois Cielo diria que não há sensação melhor do que ver o número 1 ao lado do seu nome no placar. Ainda na água, expressou o inexpressável levantando as mãos aos céus, batendo na água e chorando, simples assim.

Phelps, o revezamento americano, a dobradinha chinesa, Federica Pellegrini, foram todos momentos incríveis mas ninguém emocionou tanto o público e o mundo inteiro que o assistia como o garoto de 21 anos, que chorou como uma criança ao viver o momento de sua vida. O cubo virou verde-amarelo e, ainda durante a execução do hino brasileiro, o público aplaudiu de pé e agradeceu a sorte de ter comprado o ingresso para o 7º dia da natação, o 7º ouro de Phelps e o 1º ouro de Cielo e de uma nação inteira. Cielo, do alto de seus 1,95m e da grandeza de seu feito, chorava tanto que não era capaz nem de olhar pra frente e encarar o mundo que o louvava de pé.

Os franceses Amaury Leveaux e Alain Bernard, 2º e 3º colocados, sentiram-se honrados de ver tamanha felicidade no campeão do mundo e Bernard consolou Cielo. Por um momento, deve ter ficado em dúvida se sua vitória no 100 livre te dera tamanha satisfação. As lágrimas de Cielo reforçavam que sua vida é a natação.

Na saída do pódio, Cielo desfilou sozinho, jogou a flor para a mãe que, chorando, via seu filho atingir a consagração máxima do esporte. Pegou a bandeira brasileira de um torcedor e fez todas as câmeras de todas as TVs do mundo focarem nele e no tesouro que reluzia em seu peito e seria seu para sempre. Para completar a festa, a delegação brasileira invadiu a área da piscina e foram todos abraçar Cielo, o homem que comseguiu o que ninguém jamais havia conseguido em 88 anos de história. A comemoração foi inédita, as chinesas até se lembravam de que procedimento seguir em caso de invasão, mas não acharam uma resposta cabível em seu manual de instruções para casos de alegria plena e o brilho verde-amarelo ofuscou seus olhos. O mundo era brasileiro. César é brasileiro. O ouro é de César, por algumas horas do dia 15 de agosto, o maior dos brasileiros.