200 costas feminino – Kirsty Convetry finalmente é ouro!

Por muitos anos uma das provas mais fracas da natação, o 200 costas ganhou destaque com a chegada da zimbabuana Kirsty Convetry. Campeã em 2004, Kirsty bateu um recorde mundial que permanecia desde 1991. Este ano, na seletiva americana, Margareth Hoelzer baixou ainda mais a marca e prometia uma disputa bonita em Pequim.

Após três pratas na competição, Convetry chegou a sua principal prova com muita vontade de garantir um ouro. Heroína nacional no Zimbábue, a atleta queria ouvir seu hino pelo menos uma vez. Nadando pela 4, após bater o recorde olímpico nas semi-finais, Convetry liderou desde o começo e virou todas as parciais na frente. Hoelzer, pela 2, virou sempre mais de 1 segundo atrás e ainda tentou chegar no final, mas a zimbabuana levou a melhor. À frente da linha do recorde mundial por toda prova, Convetry chegou para 2’05”24, retomando a melhor marca do mundo e vibrando muito com seu primeiro ouro em Pequim e o bi-campeonato na prova.

Em segundo, Hoelzer marcou 2’06”23 e levou a prata. Reiko Nakamura, do Japão, repetiu a colocação das Olimpíadas de Atenas e dos Mundiais de 2005 e 2007, ficando com o bronze.

100 borboleta masculino – 1 centésimo

Apontada como uma das provas mais difíceis de Michael Phelps rumo aos 8 ouros, o 100 metros borboleta masculino era esperada como uma das maiores disputas da competição. De um lado, Ian Crocker, que bateu Phelps no Mundial de 2003 e desde então detém o recorde mundial. Do outo, Milorad Cavic, atleta que representou três países com nomes “diferentes”, devido a fragmentações e questões geopolíticas pelas quais passou (Iugoslávia em 2000, Sérvia e Montenegro em 2004 e agora, Sérvia). No meio, Michael Phelps, recordista olímpico, em busca do seu 7º ouro na competição.

Cavic nadou forte nas eliminatórias e semi-finais, chegando à finalíssima prometendo estragar com a festa de Phelps. Saiu bem e nadou forte desde o começo, virou para 23”42, abaixo do recorde mundial, e mesmo sabendo que Phelps volta muito bem, parecia que não ia dar para o americano. Phelps foi apenas o 7º na parcial do 50m, e Crocker em segundo parecia pronto para sua revanche.

Mas Phelps voltou mais forte do que nunca. Pela câmera sub-aquática, dava pra ver o atleta acelerar o ciclo de braçadas e buscar o sérvio que ainda liderava. Parecia que iam faltar 5m para que o americano levasse. Mas não faltou, sobrou. Sobrou um centésimo de diferença, 1 centésimo para sete outos e um centésimo para 1 milhão de dólares – prêmio da atleta por se igualar a Mark Spitz.

Quem viu a olho nu não acreditou. O resultado do placar desafiou a lógica, mas quem ousaria duvidar de Michael Phelps, que desafia a ciência e o senso comum, com sua virada e recuperação pós-prova inexplicáveis. Pela câmera de baixo d’água é possível ver a vitória.

A federação sérvia resolveu protestar do resultado, inconformada com o que o placar anunciava. Michael Phelps é patrocinado pelas empresas que fazem o equipamento de placar eletrônico, o que poderia aumentar possíveis suspeitas. Mas a hipótese era muito improvável, não daria tempo nem havia condições de se forjar algum tipo de resultqaod. Tanto que Cavic reconheceu a derrota e a federação desistiu do protesto. Phelps chegou melhor e encaixou a chegada, enquanto Cavic deslizou e perdeu ali, na unha.

O recorde mundial não caiu, mas com 50”58 Phelps retomou o recorde olímpico e se tornou o maior nadador de todos os tempos. Já era, considerando-se a época em que nada, onde a especialização em cada prova é cada vez maior, algo que existia em escala muito menos na época de Mark Spitz. Phelps vibrou muito e recebeu um abraço de Crocker, que, também por um centésimo, ficou de fora do pódio. Quem levou o bronze foi Andrew Lauterstein, da Austrália, com 51”12.

800 livre feminino – Nova supremacia nas provas de fundo

Recorde mais antigo da natãção mundial, o 800 livre era a última marca do mito Janet Evan a ser batida. Com nomes como Kate Ziegler, Katie Hoff, Rebecca Adlington e Alessia Filippi, todas com tempos muito próximos, a briga prometia ser boa e o recorde balançava pela primeira vez.

Entretanto, surpresas nas eliminatórias deixaram todos de boca aberta. Não só Hoff, que fazia uma competição ruim, como Kate Zigler, que foi a Pequim só para nadar esta prova, ficaram de fora. Foi uma das únicas provas da competição sem americanas na final. Ai Shibata, campeã em 2004, confirmou a má fase e também não classificou. Rebecca Adlington, campeã dos 400 metros, tinha o caminho livre pela frente e era a franca favorita na final.

E o favoritismo se confirmou. Não só Adlington liderou desde os primeiros 50 como virou sempre abaixo do histórico recorde de Evans. Na parcial dos 500, a inglesa passou 5’07, 3 segundos abaixo do recorde. A diferença se manteve e Adlington chegou para 8’14”10, baixando o recorde em 2 segundos e se tornando o novo nome a ser batido nas provas de fundo.

Em 2º, Alessia Filippi da Itália, que igualou seu melhor tempo. Uma bela disputa pelo 3º lugar deixou de fora Camelia Potec, romena que foi campeã olímpica de 200 livre em Atenas e ficou grande parte da prova na segunda colocação. Lotte Friis, da Dinamarca, garantiu o bronze com 8’23”03, apenas 8 centésimos a frente da romena.

50 livre masculino – Cielo é campeão olímpico e encanta o mundo

Em 1992, Fernando Scherer ficou a um mísero centésimo do índice olímpico nos 50 livre. Assistiu, da TV, seu compatriota Gustavo Borges levar a prata nos 100 metros livre. Quatro anos depois, foi a vez dos centésimos atuarem a seu favor depois de empatar em 8º lugar. Scherer disputou e levou a última vaga da final, se classificando para nadar na raia 8. Um dia depois, foi bronze olímpico. Scherer ainda nadou mais duas Olimpíadas, ganhou uma medalha e, no Pan de 2003, foi tri-campeão das Américas nos 50 livre. Na época, não descartava nadar o Pan do Rio, e chegou a nadar os Jogos de Atenas. Mas logo percebeu que o trono brasileiro dos 50 livre não era mais seu. Se retirou da natação sabendo que, mesmo se quisesse, agora seria muito mais difícil ser o melhor do país na prova. Surgia César Augusto Cielo Filho.

Poucos anos depois, Scherer é chamado por Cielo de seu “empresário”, e é o responsável pela profissionalização do atleta. E na manhã de céu azul e limpo, em 15 de agosto de 2008, Scherer ficou orgulhoso de ver que, do trono brasileiro, seu pupilo chegou ao trono do mundo.

A prova tinha a dose de imprevisibilidade intrínseca ao esporte e específica do 50 livre, a prova mais rápida da natação. Cielo bateu o recorde olímpico nas semi-finais, com 21”34, mas nada estava garantido. O recordista mundial Eamon Sullivan estava na raia 7 e vinha com muita vontade após perder o 100 livre para Alain Bernard. O francês, por sua vez, classificou com o segundo tempo e prometia uma disputa com Cielo nas raias centrais. Pela 1, Amaury Leveaux, que conseguiu a segunda vaga francesa tirando da prova Frederick Bousquet, companheiro de treino de Cielo. Stefan Nystrand (Suécia) , Ben Wildman-Tobriner (EUA) , Roland Schoeman (África do Sul) e Ashley Callus (Austrália) completavam a série mais forte já vista nos 50 livre. A diferença do tempo de classificação entre Cielo e o nadador da raia 8 era de apenas 47 centésimos.

Cielo entrou na final fazendo o sinal da cruz. Nervoso, mas tanto quanto os outros sete que o acompanhavam na final. Após serem apresentados, os nadadores mais rápidos do planeta se preparavam em busca da prova perfeita. Uma piscina, só ida, uma respirada, nenhuma talvez. Cielo rangeu os dentes desde a largada e nadou assim a prova inteira. Como que se lembrando e mostrando para a câmera sub-aquática que ninguém queria aquele ouro mais que ele.

A prova foi rápida e Cielo foi perfeito. Saiu bem, liderou, só precisava chegar certo. E chegou, certo e certeiro para o ouro, o primeiro do Brasil em Pequim e o primeiro da natação brasileira em toda sua história. Minutos depois Cielo diria que não há sensação melhor do que ver o número 1 ao lado do seu nome no placar. Ainda na água, expressou o inexpressável levantando as mãos aos céus, batendo na água e chorando, simples assim.

Phelps, o revezamento americano, a dobradinha chinesa, Federica Pellegrini, foram todos momentos incríveis mas ninguém emocionou tanto o público e o mundo inteiro que o assistia como o garoto de 21 anos, que chorou como uma criança ao viver o momento de sua vida. O cubo virou verde-amarelo e, ainda durante a execução do hino brasileiro, o público aplaudiu de pé e agradeceu a sorte de ter comprado o ingresso para o 7º dia da natação, o 7º ouro de Phelps e o 1º ouro de Cielo e de uma nação inteira. Cielo, do alto de seus 1,95m e da grandeza de seu feito, chorava tanto que não era capaz nem de olhar pra frente e encarar o mundo que o louvava de pé.

Os franceses Amaury Leveaux e Alain Bernard, 2º e 3º colocados, sentiram-se honrados de ver tamanha felicidade no campeão do mundo e Bernard consolou Cielo. Por um momento, deve ter ficado em dúvida se sua vitória no 100 livre te dera tamanha satisfação. As lágrimas de Cielo reforçavam que sua vida é a natação.

Na saída do pódio, Cielo desfilou sozinho, jogou a flor para a mãe que, chorando, via seu filho atingir a consagração máxima do esporte. Pegou a bandeira brasileira de um torcedor e fez todas as câmeras de todas as TVs do mundo focarem nele e no tesouro que reluzia em seu peito e seria seu para sempre. Para completar a festa, a delegação brasileira invadiu a área da piscina e foram todos abraçar Cielo, o homem que comseguiu o que ninguém jamais havia conseguido em 88 anos de história. A comemoração foi inédita, as chinesas até se lembravam de que procedimento seguir em caso de invasão, mas não acharam uma resposta cabível em seu manual de instruções para casos de alegria plena e o brilho verde-amarelo ofuscou seus olhos. O mundo era brasileiro. César é brasileiro. O ouro é de César, por algumas horas do dia 15 de agosto, o maior dos brasileiros.

200 peito feminino – E Leisel perde de novo

Depois de finalmente ser campeã olímpica (100 peito), Leisel Jones tinha tudo para ganhar a prova de 200. Para melhorar, a atual campeã olímpica Amanda Beard, que havia parado de nadar e voltou ano passado, parou nas eliminatórias e já era uma americana fora do páreo. Mas a outra, Rebecca Soni, vinha animada depois de conseguir uma inesperada prata nos 100 peito.

Leisel começou na frente e virando sempre abaixo da sua marca mundial. Rebecca Soni, que nadava na 4, vinha logo atrás e as outras nadadoras disputavam a medalha de bronze, sem jamais encostar na australiana e na americana. Na virada dos 150m, Rebecca passou na frente de Jones por apenas 1 centésimo e prometia uma disputa difícil no final. Mas ou Leisel cansou ou seu psicológico, como em vezes anteriores, atrapalhou muito. Soni não teve problemas em descolar da australiana a dominou os últimos 50 metros, chegando forte para a nova marca mundial, 2’20”22. Leisel amargou, mais uma vez, a segunda colocação com 2’22”05, quase um segundo e meio acima de seu melhor. Sara Nordenstam, da Noruega, confirmou o bom momento do estilo peito no país e chegou em terceiro lugar, tirando Mirna Jukic do pódio – a austríaca virou todas as parcias em terceiro.

200 medley masculino – 6º ouro de Phelps

Com a tradição húngara na prova e a ótima competição que vinha fazendo, Cseh veio muito forte para sua última prova da competição. Desde que a prova se tornou olímpica, em 1980, a Hungria ganhou três vezes contra duas dos Estados Unidos. Michael Phelps, favorito para o ouro, buscava empatar o placar para os EUA e conquistar seu 6º ouro.

A prova evoluiu muito desde Atenas, quando Phelps ganhou com 1’57 e agora já nada abaixo de 1’55. Lochte e Cseh, que na ocasião foi quarto, também cresceram e a prova prometia ser forte. Thiago Pereira, pela raia 3 e com o quinto melhor tempo do ano, vinha embalado pela medalha de Cielo e com muita vontade de garantir a sua também.

Phelps liderou desde o começo, passando todas as parcias na frente e abaixo de seu recorde mundial. Cseh e Lochte lutavam pelo segundo lugar, com Cseh abrindo no borboleta, seu melhor estilo, e o americano encostando no costas, estilo no qual acabara de se sagrar campeão. Thiago conseguiu virar em terceiro na parcial do 150 – o brasileiro foi o único, além de Phelps, a virar o peito na casa dos 33”. Por outro lado, seu parcial de crawl foi o segundo pior da final, com 29”83.

O ouro da prova acabou com Phelps, com nova marca mundial e olímpica, 1’54”23. Phelps já superou sua performance de Atenas, onde conseguiu seis ouros mas não bateu o recorde mundial em duas provas. Isso porque o americano ainda tem o 100 borboleta e o 4×100 medley pela frente. Cseh garantiu a segunda colocação com 1’56”52, apenas um centésimo melhor que Lochte. Foi o mesmo pódio do 400 medley e os três se afirmam como os maiores nomes da prova na atualidade.

Pereira terminou a prova em quarto, uma colocação melhor do que Atenas. Seu parcial de crawl foi fatal, e o tempo final, 1’58”14, é meio centésimo pior do que seu melhor tempo, feito no PAN em 2007. Mesmo assim, Thiago demonstrou personalidade e saiu da piscina muito cansado, não conseguia nem andar. Deu tudo de si e sabia disso, tanto que na entrevista ao final da prova estava satisfeito e ciente de que havia feito tudo que podia.

100 livre feminino – Trickett perde no final e Alemanha ganha primeiro ouro

Após ficar de fora da final dos 100 livre, na qual detém o recorde mundial, Libby Trickett contou com a desclassificação da chinesa Pang e conseguiu uma vaga na raia 8. Tudo indicava que viria com muita força para a final, depois do susto que levou. E foi o que a velocista australiana fez. Passou em primeiro com 25”18 e liderou até os 70m, quando as raias do centro começaram a chegar. Coughlin aproveitava seu submerso incrível enquanto Hanna Maria-Seppala vinha forte. Mas na raia 7, a alemã Britta Steffen, que tinha virado apenas em 8º lugar, começou um ciclo de pernada espertacular e ultrapassou Trickett. A prova mais nobre da natação, na sua versão feminina, tinha sua luta travada nas raias do canto, 7 e 8, a recordista olímpica e mundial. E deu Alemanha. Steffen não baixou dos 53” mas levou o ouro com 53”12 e por apenas quatro centésimos ganhou da australiana. Em terceiro, Coughlin com novo recorde americano, 53”39.

O primeiro ouro do Brasil em Pequim, o primeiro ouro da natação brasileira em 88 anos de Olimpíadas… mas principalmente o ouro da vida de César Augusto Cielo Filho. Muito maior do que a história e o quadro de medalhas, do que todos que ficaram felizes por ele e choraram ouvindo o hino brasileiro, maior que a seleção brasileira invadindo a área da piscina e os dirigentes aliviados, maior é o que ele sentiu e todos só podem imaginar, porque só ele sentiu o calor abafado vindo da baliza 4, rangeu os dentes e girou os braços como se sua vida dependesse disso. Um dia, nas Olimpíadas, o mesmo Brasil vai vibrar como nunca por um ouro que outro personagem, que talvez esteja nascendo agora, irá conquistar. A história passa, a Olimpíada acaba, os recordes são batidos, mas a medalha é dele, e mesmo que alguém esteja mais feliz que César Augusto Cielo Filho, César Augusto Cielo Filho está além da felicidade, além do dizível e do descritível. É o dia mais bonito da sua vida Cielo, e é seu.

O vôlei de praia é responsável pela melhor colocação do Brasil no ranking olímpico de modalidade, com um segundo lugar, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. O esporte estreou nas Olimpíadas em 1996 como teste, e já nessa edição o Brasil mostrou ao mundo que entendia do esporte. As duplas Jaqueline e Sandra e Mônica e Adriana fizeram a dobradinha para o Brasil, conquistando o primeiro ouro feminino na história do país. Quatro anos depois, o Brasil não chegou ao lugar mais alto do pódio mas conquistou três medalhas: uma prata com as favoritas Adriana Behar e Shelda e com Zé Marco e Ricardo, e o bronze com Sandra e Adriana Samuel. Em Atenas, Ricardo e Emanuel confirmaram o favoritismo e levaram o ouro, enquanto Adriana Behar e Shelda repetiram a prata.

A explicação mais óbvia, e correta, é que por se tratar de um país com litoral tão extenso, o Brasil sai na frente. Uma rapida olhada no ranking de Olimpíadas mostra que os três países mais premiados são Estados Unidos, Brasil e Austrália, todos partindo da vantagem de ter praias em abundância. O próprio começo do esporte, na Califórnia, indica isso. O início se deu na década de 20, no estado americano e no Havaí, onde torneios amadores já aconteciam, e muitas vezes se jogava com quatro atletas de cada lado. Em 1947, ocorreu o primeiro torneio oficial, de duplas masculinas, na Califórnia. No Brasil, foi por volta desse ano que as pessoas começaram a praticar o esporte nas praias do Rio de Janeiro. Em 1965, criou-se a Associação de Voleibol de Praia da Califórnia, primeira entidade com vistas de organizar torneios e regulamentar o esporte.

No Brasil, é comum ex-jogadores de vôlei de quadra irem se aventurar na areia. Até agora isso não deu muito certo, e alguns deles até voltaram para as quadras, como Leila, Virna, Tande, Giovanni e Nalbert. Mas a verdade é que na década de 80, esse movimento foi muito importante para a popularização do esporte, com alguns jogadores da Geração de Prata indo para a areia, como Renan, Montanaro e William.

O vôlei de praia fica sob a tutela das Confederações Nacionais de Vôlei, e internacionalmente é parte da Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Talvez essa proximidade com o vôlei tenha sido boa para o Brasil. A modalidade herdou algumas das boas práticas do esporte, que nos últimos anos está entre os melhores do mundo tanto no feminino quanto no masculino. Além dos mais de 7000km de costa, o vôlei de praia tem treinamento de primeiro mundo.

Ricardo e Emanuel, que tentam o bi-campeonato olímpico em Pequim, contam com uma equipe composta por técnico, preparador físico e um responsável por estatísticas e por gravar os jogos dos adversários. A prática, que foi introduzida por Bernardinho nas quadras e é apontada como um dos grandes trunfos da equipe masculina de vôlei, é usado pela dupla para estudar adversários, corrigir jogadas e coletar o máximo de informações possíveis.

Juliana e Larissa, melhor dupla feminina do Brasil, construíram um Centro de Treinamento em Fortaleza para fugir dos olhares curiosos. O CT é equipado com piscina, quadra, sala de fisioterapia, entrevista e de vídeo, além de contar com areia fofa e dura, o que impõe um treino forte às atletas. Inaugurado em maio, após as Olimpíadas o CT pode ser aberto para projetos sociais, fomentando o esporte entre garotas jovens.

O mais interessante é que, apesar dessa preparação mais focada e custosa para os atletas de nível mais alto, o esporte não é elitista. Qualquer praia do Brasil pode ser cenário para a iniciação no esporte, embora o lugar com mais tradição ainda seja o Rio de Janeiro. E pela via da Confederação Brasileira de Vôlei, os atletas que se destacam recebem verbas de patrocínio. Além disso, algumas duplas treinam no Centro de Voleibol de Saquarema, iniciativa criada em parceria da Confederação Brasileira de Vôlei e o Ministério do Esporte. O projeto abarca também e principalmente o vôlei de quadra, com o treinamento de equipes das categorias de base.

Investimentos desse tipo, em centros de treinamento, bem como trabalhos estatísticos e de filmagens, começam a aparecer em diferentes esportes, mas ainda são práticas incipientes. Seria interessante que um esporte olímpico tão novo, em que o Brasil já possui resultados tão significativos (medalhou em todas as edições, saindo com o ouro em duas das três) seguisse o que está fazendo de bom para se manter no alto. É a prova da verdade irrefutável de que um país com quase 190 milhões de habitantes é um celeiro de talentos olímpicos, mas que só se tornará potência quando aprender a investir os recursos certos no lugar certo.

200 peito masculino – Kitajima confirma favoritismo e é bi-campeão olímpico

A prova de 200 peito começou desfalcada antes mesmo das eliminatórias, com a ausência de Brendan Hansen, segundo melhor tempo do mundo, eliminado nas seletivas americanas. Ironia do destino, Hansen perdeu a vaga para dois atletas mais novos, Scott Span e Eric Shanteau, que foram treinar com Hansen no intuito de aprender com o ídolo e acabaram com a vaga na prova.

Com o caminho livre de seu principal adversário, o japonês Kosuke Kitajima confirmou com facilidade o favoritismo e agora é campeão mundial e bi-campeão olímpico. O japonês não superou seu recorde mundial por apenas 13 centésimos, estabelecido em junho nas seletivas de seu país, mas fez a segunda melhor marca de todos os tempos e bateu o recorde olímpico com 2’07”64.

A disputa pelas outras colocações foi emocionante, com 34 centésimos dividindo o 2º e o 5º colocados. Quem levou a melhor foi o australiano Brenton Rickard, uma nova promessa para um país com pouca tradição no estilo. O bronze ficou com o francês Hugues Duboscq, que repetiu a colocação do 100 peito e vem como um forte reforço para o revezamento de medley francês.

O pódio não teve a presença de nenhum americano, com Spann ficando apenas em 6º lugar e Shanteau caindo nas semi-finais. O nadador descobriu pouco antes dos Jogos que está com cancêr nos testículos e chegou a ter dúvida se deveria vir a Pequim. Conversando com o ciclista Lance Armstrong, que viveu problema parecido e foi sete vezes campeão da Volta da França, decidiu vir para as Olimpíadas, participou da cerimônia de abertura, nadou, e começará o tratamento logo após os Jogos. Outro que era favorito e ficou fora do pódio foi o húngaro Daniel Gyurta, que em Atenas ficou com a prara quando tinha apenas 15 anos e dessa vez amargou uma quinta colocação, mesmo com o 2º melhor final de prova (32”95).

200 borboleta feminino – Zebra e dobradinha chinesa no Cubo d’Água!

Celeiro de campeãs como Susan O’Neill e Petria Thomas, a Austrália chegou às Olimpíadas com chances de manter sua supremacia no borboleta. Libby Trickett venceu os 100 metros, e a tarefa de ganhar os 200 cabia às braçadas da recordista mundial Jessica Schipper.

Surpreendentemente, as chinesas Liu Zige e Jiao Liuyang se classificaram nas raias centrais. Com pouca tradição mas muita torcida, as duas prometiam um bela disputa. Quem também estava na prova era a campeã olímpica Otilia Jedrzejczak, que desde 2005 não repetia seu melhor tempo e sofreu um grave acidente de carro onde perdeu seu irmão.

Schipper passou forte e já abaixo de seu recorde mundial, com as chinesas colando logo atrás. Liu e Schipper continuaram juntas e viraram muito forte abaixo de 1’00, com Schipper fortíssima para 58.99. Mas não deu pra australiana. Ela ainda virou em segundo nos 150, mas na volta as chinesas atacaram e fecharam muito forte, nadando na casa dos 2’04 (2’04”18 para Liu e 2’04”72 para Jiao).

Foi a primeira medalha de ouro da China na natação em Pequim e a primeira dobradinha no feminino. O Cubo d’Água vibrou muito com o hino nacional chinês, mas o barulho não abafou as dúvidas sobre as performances chinesas. Tanto Liu quanto Jiao melhoraram muito nos últimos anos, sendo que a campeã, que marcou 2’04 aqui, tinha 2’12 até 2006.

100 livre masculino – Três lugares não são suficientes para a prova mais nobre da natação

Mesmo que recordes mundiais sejam quebrados em outras provas, que o tempo de 100 livre passe por estagnação ou não tenha nomes consagrados na final, a prova sempre tem uma aura diferente, sendo considerada por muitos a prova mais nobre da natação. E é mesmo. Aliando explosão, velocidade, um final de prova forte e o estilo livre, a prova costuma ser a mais esperada e a mais assistida desde as categorias de base. Para completar, a prova chegou à Pequim mais badalada ainda por ter seu recorde, que já durava 8 anos, batido cinco vezes desde março, sendo três delas em Pequim. Eamon Sullivan e Alain Bernard, pelas raias 4 e 5, foram os responsáveis pelo troca-troca e eram os favoritos para a prova. Mas no 100 livre nada é garantido, e Pieter van den Hoogenband vinha cheio de vontade de conquistar um inédito tri-campeonato olímpico. Stefan Nystrand, sueco recordista mundial da prova na piscina curta e Jason Lezak, o herói do revezamento americano que fechou para incríveis 46”06 também chegavam com chances. Lyndon Ferns, da África do Sul, Matt Target, da Austrália e César Cielo, do Brasil, eram os outros nomes e também vinham bem para a final mais forte dos 100 livre de todos os tempos.

Eram 11h46 da manhã na China e todos os olhos se concentravam na piscina. Uma das provas mais esperadas dos Jogos e tudo indefinido. A torcida brasileira estava presente, com bandeiras e gritaria, olhando fixo para o nadador mais novo da prova que estava na 8 e achou que não ia classificar para a final. Ao seu lado, Lezak, onze anos mais velho, único norte-americano presente, tentava provar que não era nadador só de revezamentos. A largada é dada e, pela raia 8, Cielo sai na frente.

Sullivan e Bernard polarizaram a disputa e travaram uma bonita luta pelo ouro. O australiano virou na frente mas o francês estava logo atrás. Desde os 50 metros a linha do recorde descolou dos nadadores mas ninguém queria saber do recorde, a medalha dourada era o mais importante. Cielo virou em terceiro e vinha colado em Lezak, Pieter e Nystrand. A chegada seria emocionanete e um par de olhos não era suficiente para ficar atento à piscina de 50 metros onde os oito nadadores se degladiavam para chegar ao Olimpo chinês.

E deu França. Bernard ficou com o ouro nove centésimos a frente de Sullivan. O ainda recordista mundial australiano não escondeu a decepção e olhava o placar incrédulo. A mesma coisa se passava na cabeça do francês, que não acreditava na vitória. Deu pra ver na cara dos dois que aquela prova tinha sido mentalizada pelos dois inúmeras vezes e agora chegava ao fim. Com um só vencedor.

A cena acima só foi vista pelos brasileiros no replay. Narradores e comentaristas dos canais que transmitiam a prova demoraram pra avisar ao público quem tinha sido o vencedor. Mas os torcedores não se importaram, porque menos de meio segundo depois, Cielo bateu, e em milésimos de segundo que pareceram uma eternidade, a bandeira brasileira surgiu na piscina, colorindo os Jogos que há 8 anos sentiam saudades do verde-amarelo nas águas olímpicas. Cielo era bronze. Cielo de técnico australiano, Universidade americana e coração brasileiro. César Augusto Cielo Filho, do Brasil. Nos 100 livre, mais uma vez.

Mas este degrau do pódio tinha outro vencedor. Os guerreiros da prova mais nobre da natação não cabem em três lugares, e o empate levou Jason Lezak, de 32 anos, ao pódio olímpico individual pela primeira vez. Lezak, que trabalha e treina sozinho na hora do almoço, que salvou o revezamento americano no melhor final de prova da história, que manteve aceso o sonho de Phelps de ganhar oito ouros olímpicos, que se formou em 1999 na Universidade de Califórnia, em Santa Bárbara. Mesmo nome da cidade brasileira em que, no mesmo ano, César Cielo, aos 12, competia no interior e quando perdia chorava e pedia para a irmã buscar sua medalha no pódio.

Cielo chorou de novo na manhã de 14 de agosto em Pequim. Chorou ao falar da emoção que foi ver seu nome no placar na quarta colocação, mas com um número 3 do lado que indicava que aquelas competições em Santa Bárbara valeram a pena, bem como a ida para São Paulo aos 15 anos, as baladas que deixou de ir e a mudança para os Estados Unidos, o acordo com o técnico de não namorar, os treinos em que saiu xingando e mal conseguia andar de tão cansado. Chorou quando lembrou dos brasileiros que já ocuparam o lugar que agora é seu, Fernando Scherer, seu empresário, e Gustavo Borges, que saiu correndo da cabine da Rede Globo para parabenizá-lo e vibrou como se visse a si mesmo ali, como em Barcelona, como em Atlanta. Chorou mais ainda ao agradecer ao Pinheiros, a CBDA, aos Correios e a sua família.

O pódio foi mágico. Cielo apareceu com o uniforme verde-amarelo, e não conseguia conter o riso. A câmera ainda mostrou seus pais, que foram até a China sem ingresso e lá conseguiram entrar no Cubo e ver seu filho encantar o mundo. Talvez os leigos tenham se surpreendido com aquele garoto de 21 anos invadindo o pódio de nomes tão consagrados, logo ele, nadando pela raia 8. Mas para Cielo, e para nós, o bronze não foi nenhuma surpresa. Cielo treinou pra isso e todos sabiam que ele podia. A diferença dos grandes campeões é que eles não só sabem que podem fazer. Eles fazem.

Cielo fez, encheu a natação brasileira de orgulho e, por alguns minutos, fez tudo no mundo parecer assim, magicamente possível.

Veio de Santa Bárbara, tem 21 anos, treina com técnico estrangeiro, primeiro ouro da natação brasileira em Pequim, recorde sul-americano, chorou na entrevista, quase não entrou na final, recebeu patrocínio especial dos Correios, empatou com Lezak 11 anos mais velho, comemorou mais que o campeão.. dá pra dizer tudo e tudo agora é pouco, tudo é pouco perto da medalha de bronze e da beleza mais genuína que é ver o sonho de uma vida, de uma vida de treinos e de tanto sacrifício, ser realizado. Comemora Cesão, comemora que a medalha é sua e o Brasil, hoje, é seu também.

200 livre feminino – Federica confirma supremacia européia e faz Cubo virar italiano

Após desapontar na final dos 400 livre, quando chegou à final com recorde mundial e acabou fora do pódio, Federica Pellegrini foi confiante para a final dos 200 livre. E mais uma vez chegou à prova como favorita, após estabelecer o recorde olímpico e mundial nas eliminatórias, com a marca de 1’55”45. Federica, que completou seu aniversário de 20 anos em Pequim no dia 5 de agosto, teria pela frente a americana Katie Hoff (que chegou às Olimpíadas com chances de ganhar pelo menos 4 ouros e até agora não levou nenhum), a campeão olímpica de Atenas Camelia Potec e a chinesa Jiaying Pang, embalada por nadar em casa com a torcida a seu favor.

Impondo seu ritmo desde o começo, Federica liderou a prova e nadou muito forte, passando sempre abaixo do sue recorde mundial. Nos primeiros 50 Pang até virou na frente, mas a italiana virou os 100 para fortíssimos 55”92, mais de 1 segundo abaixo do recorde. Federica quase foi ultrapassada pela eslovena Sara Isakovic, que cresceu muito no final, e ambas baixaram a barreira do 1’55, marcando 1’54”82 e 1’54”87. Katie Hoff, que virou todas as parciais em terceiro, acabou em quarta com 1’55”78, perdendo o bronze para Pang. Federica vibrou muito com seu primeiro ouro olímpico e comemorou com Isakovic, que surpreendeu com a prata. A prova teve um nível altíssimo, com as oito nadadoras da final nadando abaixo de 1’58, tempo que venceu a prova em 2004 (1’58”02).

No pódio, Federica também deu show. Na primeira execução do hino italiano no Cubo d’Água, sem saber até que ponto o bonito “il Canto degli Italiani” seria executado, Federica cantou, riu, e no final fez a platéia bater palmas e cantar junto com ela. Foi um dos pódios mais bonitos dos Jogos e por mais uma edição, desde 1992, as americanas ficaram de fora dele.

200 borboleta masculino – Phelps vence, bate recorde e não gosta

A estréia de Phelps em Olimpíadas (2000) e o seu primeiro recorde mundial (2001) foram nessa prova, que hoje é tida como uma das mais fáceis para o americano. Confirmando o favoritismo, Phelps virou forte desde o começo e descolou dos demais concorrentes, que lutaram pelos outros dois lugares no pódio.

A prova tinha a presença de Kaio Márcio de Almeida, nadador da Paraíba que detém o recorde mundial dos 50 borboleta em piscina curta desde 2005. O brasileiro chegou à sua primeira final olímpica com chances reais de medalha. Treinado por Roseane Carneiro, Kaio bateu o recorde sul-americano nas eliminatórias com o tempo de 1’54”65, e a briga prometia ser boa com todos os nadadores na final com chances de chegar ao pódio.

Phelps confirmou o favoritismo e venceu com 1’52”03, novo recorde mundial, mas não o suficiente para o americano, que queria quebrar a barreira do 1’51. Phelps ficou claramente desapontado e jogou o óclinhos longe, pela imagem pareceu que havia entrado água no acessório. Em segundo lugar, Lazlo Cseh com uma incrível volta de 58”11, melhor até que a volta de Phelps (58”50). Em terceiro, o japonês Takeshi Matsuda, que também nadou para 1’52 e desbancou do pódio o chinês Peng Wu, uma das promessas da casa. Kaio ficou com a 7ª colocação com a marca de 1’54”71.

200 medley feminino – Rice, a melhor do medley

A prova de 200 foi quase uma repetição dos 400 medley. Stephanie Rice, a sensação australiana que estourou na seletiva do país este ano ao bater dois recordes mundiais, começou forte desde o começo. Forçando no borboleta (27”84) e no costas (32”84), desbancou Katie Hoff logo no início e polarizou a disputa com a zimbabuana Kirsty Conventry, que vinha com muita vontade após duas pratas.

Mas a história se repetiu, e Rice levou a melhor na disputa. Conventry bem que tentou chegar mas a australiana bateu seu próprio recorde mundial e levou o ouro, com apenas 14 centésimos de diferença para Kirsty, que conquistou sua 3ª medalha de prata. Quem ficou em situação pior foi a americana Katie Hoff, que perdeu para a compatriota Natalie Coughlin e amargou um quarto lugar em mais uma das provas em que era favorita.

4×200 livre masculino – A vitória mais fácil dos EUA e de Phelps

Contrastando com a disputa emocionante do 4×100 livre, o 4×200 foi uma das vitórias mais fáceis dos EUA nas Olimpíadas. Com os 4 membros do revezamento – Michael Phelps, Ryan Lochte, Ricky Berens e Peter Vanderkaay, na ordem da prova- figurando entre os 10 melhores tempos da história dos 200 livre, a equipe dos EUA era a favorita disparada para o ouro. A situação é muito diferente do que se viu em Atenas, há 4 anos, quando o revezamento 4×200 foi uma batalha histórica entre EUA e Austrália, com uma vitória incrível dos americanos no final. Na época, Klete Keller caiu na água para fechar a prova junto com Ian thorpe, e contrariando todas as expectativas segurou o torpedo e garantiu o ouro americano.

Dessa vez, a vitória foi bem mais tranquila. Os EUA nadaram a prova inteira com a linha do recorde mundial para trás e, fora Berens, todos os atletas nadaram abaixo de 1’45. A nova marca olímpica e mundial é de 6’58”56, nada menos que 5 segundos abaixo da antiga marca, que pertencia aos próprios americanos. Em segundo lugar ficou a Rússia, que estraçalhou o recorde europeu da Itália e marcou 7’03”70. Um dos destaques russos é o nadador Danila Izotov de apenas 16 anos, que brilhou no Mundial Júnior realizado em julho em Monterrey. Danila fez o segundo melhor tempo do revezamento russo, com 1’45”85. O bronze ficou com a Austrália, que conseguiu segurar os 1’44”12 de Filippo Magnini e tirou a Itália do pódio por apenas 37 centésimos.