Depois de ser prata nas Olimpíadas de 2004 e na Copa do Mundo de 2007, a seleção feminina de futebol do Brasil chegou às Olimpíadas com chances de chegar ao ouro. Mas ainda não foi dessa vez. Após passar pela forte campeã mundial Alemanha nas semi-finais, as meninas do Brasil tinham pela frente a seleção norte-americana, algoz de Atenas. Mas as brasileiras já haviam batido os EUA em um jogo importante, nas semi-finais da Copa do Mundo, em 2007. Em Pequim, pela primeira vez chegavam a final como favoritas ao ouro.

Das 18 jogadoras a seleção norte-americana, só 7 estiveram em Atenas. No caso do Brasil, são 10 as remanescentes da equipe de 2004, entre elas a jogadora Marta, eleita pela Fifa como a melhor jogadora do mundo em 2006 e 2007. Os perfis das duas equipes são diferentes também. Um rápido levantamento mostra que na seleção americana nem todas as jogadoras atuam nos EUA, mas todas passaram pela Liga Universitária do país. E as que não jogam nos Estados Unidos estão em países que mantém ligas femininas fortes e estruturadas, como Suécia e Alemanha. Pelo Brasil as coisas são diferentes. Das 18 jogadoras que estiveram em Pequim, só 8 atuam fora do país. São 3 jogadoras na Suécia: Marta no UEMA e Cristiane e Daniela Alves no Linkoping. O país possui um dos campeonatos mais fortes do mundo, o deste ano reunindo 12 clubes e mais de 40 jogadoras estrangeiras. Outro país de destino das brasileiras é a Espanha, que hoje só conta com a goleira Andréia no Prainsa, mas já teve passagens de jogadoras pelo Rayo Vallecano e Sporting Huevla. Completam os destinos a Áustria, Dinamarca, França e Japão, onde joga Pretinha, a mais antiga jogadora da seleção. A atacante defende as cores verde-amarelas desde 1991 e participou de todas as quatro Olimpíadas desde que foi introduzido o futebol feminino nos Jogos. O balanço de Pretinha nas Olimpíadas é o balanço da seleção brasileira: duas vezes 4° lugar e duas vezes prata, o que indica que o Brasil sempre chegou as semi-finais, mas nunca venceu nos jogos finais (disputa do bronze ou do ouro).

As outras 8 jogadoras que não estão no exterior estão espalhadas pelo Brasil. Quatro delas (Érika, Ester, Francielle e Maurice) jogam no Santos Futebol Clube, equipe do litoral paulista que é uma das poucas que mantém uma equipe de futebol feminino. O Santos, cujo técnico Kleiton Lima é também o treinador da seleção brasileira sub-20, mantém não só a equipe principal como uma escolinha para as categorias de base. Iniciado em 1997, o trabalho rendeu títulos paulistas, da Copa Mercosul, e a primeira colocação na Liga Nacional de 2007. Na ocasião, o time bateu a equipe do Botucatu, também incentivadora do esporte e clube pelo qual passaram muitas jogadoras de destaque da seleção. Quem joga lá atualmente é Formiga, a segunda atleta com mais tempo de seleção, atuando pelo Brasil desde 1995.

O Corinthians também montou há poucos anos uma equipe de futebol feminino. Outros clubes que se destacam são o Ferroviário, Juventus, Sport Recife e Saad, sendo este um dos principais times da história do futebol feminino no Brasil. Fundado em 1961, ele começou a ter equipes de mulheres em 1985. Localizado no ABC paulista, o time esbarrou na Federação Paulista de Futebol, que não permitia inscrições de equipes femininas. Graças a uma parceria com a Federação do Mato Grosso do Sul, o clube conseguiu se inscrever e passou a disputar torneios no Brasil e no exterior. Há poucas informações sobre esses torneios, que não eram organizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O primeiro torneio feminino do Brasil foi a Taça Brasil, organizada pelo presidente da equipe do Radar, do Rio de Janeiro, em 1983. Disputado até 1989 e sempre vencido pelo Radar, reunia poucas equipes e não era considerado profissional. Aliás, apesar de algumas mudanças, muito continua igual. O principal torneio feminino do Brasil, a Liga Nacional, é organizado por uma entidade administrativa que leva o mesmo nome do torneio. Fundada em 1999, organiza campeonatos para jogadores amadores , e não há um número certo de equipes que participarão dos campeonatos, tudo dependendo do contexto de cada ano. O único torneio organizado pela CBF é a Copa do Brasil de Futebol Feminino, mas o destaque mínimo dado no site da Confederação corresponde a atenção dada pelos dirigentes.

O cenário mostra que o confronto principal já estava perdido pelas jogadoras antes de entrarem em campo. Não se trata de tentar alçar, de uma hora para outra, o futebol feminino à condição que o masculino possui, pois isso esbarra em falta de interesse público e do público, além de um preconceito que ainda não acabou- mas convenientemente desaparece na hora de torcer por mais um ouro no quadro de medalhas. Não dá pra imaginar, de qualquer forma, que o futebol feminino poderia ou pode ocupar a visibilidade que tem o masculino, mas a CBF poderia ao menos dar um pouco mais de dignidade às jogadoras que representam tão bem o país (ultimamente melhor que os homens, aliás). Tanto que declarações dizendo que a idéia é formar um campeonato que traga as maiores estrelas de volta para o Brasil é ilusória. Quem consegue ir para um time forte do exterior deve fazer isso mesmo – como o fazem os homens – mas para quem fica, falta um campeonato decente, cumprir promessas de anos olímpicos, e um mínimo de estrutura. As jogadoras do Brasil jogam com duas partes do tripé de qualquer atleta: talento e treino. Falta só apoio.

Anúncios

A final do vôlei masculino no último dia dos Jogos Olímpicos era esperada como um duelo de titãs. De um lado, a seleção brasileira, campeã olímpica em 2004 e uma das mais vitoriosas de todos os tempos, chegando a sua 25ª final de 27 torneios disputados em 8 anos. Do outro lado, Estados Unidos, o time responsável por tirar o Brasil de uma dessas finais, ainda este ano, no Brasil. A seleção americana, na visão dos próprios brasileiros, era a que mais sabia jogar contra o Brasil, tendo estudado exaustivamente as jogadas e táticas da seleção.

Mas um duelo só se torna histórico quando tem elementos externos, que realçam o que o jogo na quadra já possui de dificuldades, emoção e superação. Mais do que esse currículo recheado de vitórias e do que o histórico de confrontos, o jogo envolvia duas seleções cuja marca era uma equipe muito coesa e problemas superados pelo conjunto.

No caso americano, o que se via em quadra era a melhor seleção do país nos últimos 20 anos. Isto porque desde o bi-campeonato em 1984-1988 (no primeiro ano, em cima do Brasil e de sua “Geração de Prata”, com a participação Bernardinho, hoje técnico brasileiro) os Estados Unidos não chegavam a uma final olímpica. A equipe caiu muito desde essas conquistas e foi bronze em Barcelona (ocasião em que o Brasil ganhou seu primeiro ouro olímpico), 9° em Atlanta, 11° em Sidney e 4° em Atenas. Em três dessas ocasiões, estava presente Lloy Ball, peça importante na campanha olímpica, e o primeiro jogador norte-americano a participar de quatro Olimpíadas. A seleção dos EUA havia ganhado a Liga Mundial em junho e vinha muito focada em bater todos os adversários, principalmente o mais forte deles, a referência, o mais estudado nos últimos quatro anos: a seleção do Brasil. E já nos Jogos, uma fatalidade abalou a equipe americana. O sogro do treinador Hugh McCutcheon foi morto por um chinês um dia após a cerimônia de abertura, e o treinador ficou ausente dos três primeiros jogos, acompanhando a esposa e cuidando da sogra, que também fora atacada e corria risco de vida. McCutcheon voltou à equipe, com o consentimento da família, para terminar a saga que começara há quatro anos. Na final, os jogadores entrariam com as letras iniciais dos sogros do treinador gravadas no tênis, em sinal de solidariedade à família de quem os havia guiado até ali.

Pelo Brasil, chegava-se à segunda final olímpica em 8 anos, após um ciclo invejável, mas que no final de 2007 ganhara contornos dramáticos após a saída do levantador Ricardinho, um dos melhores do mundo na posição, cortado pelo técnico Bernardinho com o consentimento dos jogadores. Muito se especulou sobre a saída, e mesmo com um levantador de extrema qualidade – Marcelinho – a falta do jogador ainda é apontada por muitos como um fator de desgaste. Desgaste não só pela sua falta nas quadras, mas principalmente pelos problemas que o jogador teria gerado dentro do que costuma ser chamada “Família Bernardinho”. A saída de Ricardinho foi uma opção do treinador, em prol da coesão do grupo e de problemas internos que, por mais que se fale, só os jogadores sabem quais são. Além das táticas e jogadas vitoriosas construídas nesses 8 anos, uma das marcas dessa seleção é o alto grau de entrosamento, ajuda mútua e detalhes internos ao grupo, e só ao grupo. Bernardinho falou muito de um pacto, que era só deles. Por fim, as Olimpíadas marcavam o último jogo de muitos jogadores da seleção. Anderson e Gustavo, antes dos Jogos, já anunciavam que seria sua última participação pelo Brasil.

Em meio a esse cenário, as seleções entraram em quadra nervosas, mas com uma garra poucas vezes vista para jogar. Os dois queriam muito o ouro. E quem saiu na frente foi o Brasil, que dominou o primeiro set. Parecia até que seria fácil. Mas os Estados Unidos voltaram com tudo no segundo set e, com atuação fantástica de Clayton Stanley, a seleção chegou a abrir 8×1 diante de um Brasil que errou muito. O bloqueio dos EUA funcionavam na maioria das bolas e houve muitos erros de saque de ambos os lados. Os EUA fecharam o 2° set e no 3° ficaram a frente o tempo todo. No 4° set, o Brasil seguiu na frente até os 20 pontos, e tinha chances de ganhar e levar o jogo para o tie-break. Mas errou bolas decisivas e mesmo com mudanças de Bernardinho – que em uma jogada muito arriscada, colocou Bruninho para sacar no lugar de Giba, ao que o levantandor correspondeu – o Brasil não conseguiu segurar o placar e os Estados Unidos levaram o set, a partida, o ouro. Os americanos se abraçavam e comemoravam a consagração de quatro anos de muito treino e esforço. Por mais que qualquer fator extra-quadra possa ter influenciado, a verdade é que os americanos foram superiores no jogo, e os próprios jogadores brasileiros disseram isso.

Ao final do jogo, alguns brasileiros choraram, principalmente Bruninho e Marcelinho. Mas mais do que pela derrota, a tônica dos jogadores após a partida era de exaltar o orgulho que era participar daquela equipe. Marcelinho falou tudo quando disse que a prata não tinha sabor de ouro, mas de prata mesmo, e ainda assim era muito suada. O próprio técnico Bernardinho, sempre preocupado e, em suas próprias palavras, “neurótico”, chorou ao falar sobre o time de jogadores que teve a honra de treinar.

As dúvidas agora ficam com relação ao futuro da equipe. Não se sabe ao certo quem continuará na seleção. Gustavo já declarou que a decisão fora tomada no começo do ano e não tem retorno. Giba disse que com certeza fica até 2010, mas depois disso não tem nada definido. O próprio Bernardinho, apesar de expressar o desejo de ajudar na renovação do time e de falar que não se imagina longe de tudo isso, não sabe se continuará no comando de umas das seleções mais vitoriosas que o Brasil já teve. Fica a certeza de que quem for fará falta e, mesmo que outras gerações cheguem, essa ficará sempre lembrada como nossa geração de ouro.

[*] Vídeo de Bernardinho, emocionado, falando sobre seus jogadores.

Carol Albuquerque, Fabiana, Jaqueline, Paula Pequeno, Sheilla, Valeskinha, Fabi, Fofão, Mari, Sassá, Thaisa, Walewska. Seis delas estavam naquele fatídico set, há quatro anos, quando um 24×19 não foi o bastante para chegar a final e a seleção sucumbiu nas semi-finais. Três anos depois, no Pan do Rio de Janeiro, as brasileiras enfrentavam as rivais cubanas, e em um jogo fortíssimo viram escapar seis match points, o quarto set para Cuba por 34×32, o ouro no tie-break, e a torcida brasileira indo embora sem esperar a entrega da prata para suas jogadoras. Hoje, as doze, mais a comissão técnica e todas as jogadoras que participaram dessa luta mas não estão lá, comemoraram o ouro olímpico no volêi, o primeiro no feminino em todos os tempos. O ouro do orgulho e do trabalho bem feito, o ouro do sinal que Fabi fez para Mari, o sinal da volta por cima depois de quatro anos taxada pelo ponto que perdeu em 2004, como se todos os outros 33 que fez naquela semi-final nada valessem. O ouro de Carol e Joyce, cortadas pouco antes das Olimpíadas e homenageadas no pódio pelas jogadoras. O ouro de Fofão, com 38 anos em sua 5ª Olimpíada e se retirando do esporte, o ouro de José Roberto Guimarães, que mais importante do que se tornar o primeiro técnico a ser ouro no masculino e feminino, é o técnico que não abandonou suas atletas em momento algum e acreditou no grupo mais desacreditado. O ouro de uma seleção que veio de dois quarto lugares e dois bronzes nas últimas quatro Olimpíadas. O ouro do Brasil mas, principalmente, o ouro delas, nossas meninas de ouro.

A entrevista abaixo foi realizada antes de Gabriella Silva embarcar para sua primeira Olimpíada, onde conquistou o sétimo lugar no 100 metros borboleta, única final feminina do Brasil em Pequim. Gabriella me falou sobre o início no esporte, o treinamento, as expectativas para Pequim e sua paixão pela natação.

Matéria publicada também no site da BestSwimming

Beatriz: Quando e por que você começou a nadar?
Gabriella: Nadar eu comecei com 3 anos, mas competir mesmo foi com 6. Eu comecei por causa do meu pai, ele achava muito importante os filhos praticarem esporte, e sempre achou a natação o esporte mais completo.

Onde você começou a treinar?
A maior parte da minha vida nadei no Fluminense, depois fui para o Flamengo em 2003 e fiquei 2 anos. Em 2005 fui para o Minas e desde 2006 estou no Pinheiros.

Como foi tomar a decisão de sair de casa tão cedo?
Foi muito difícil, mas tudo aconteceu muito rápido. Foi no final do ano de 2004, em dezembro, que decidi sair do Rio porque via que o nível da natação carioca estava caindo, as competições ficando mais fracas. Ainda tinha 15 anos, minha mãe ficou desesperada, como a filhinha dela ia embora de casa assim! Meu pai me incentivou muito, e foi tudo muito rápido, conversei com o técnico do Minas, eles mandaram a proposta, e acabei indo para Belo Horizonte.

E como foi a experiência lá?
Olha, o primeiro ano foi meio complicado. O treinamento era muito diferente, a cidade era muito diferente… mesmo sendo metrópole como o Rio, BH era mais parada, com clima de interior. Foi difícil ficar longe da minha família, senti muita falta da minha irmã, com quem tenho uma ligação muito forte… isso tudo atrapalhou e eu acabei não me adaptando ao Minas.

Em algum momento você pensou em voltar para o Rio?
Pensei. Mas não sou uma pessoa que desiste facilmente. Ai no final do ano surgiu a proposta do Pinheiros. No ano anterior, quando eu sai do Rio, além do Minas eu tinha cogitado ir para o Pinheiros também, mas eles demoraram muito para fazer a proposta e eu acabei indo pro Minas. No final de 2005 conversei com o Albertinho e tudo se encaixou.

Depois da sua chegada no Pinheiros, em menos de 6 meses você bateu o recorde sul-americano dos 100 borboleta, um dos mais antigos da natação feminina, que já durava mais de 10 anos. Fale um pouco sobre esse começo.
Eu amei e amo a equipe do Pinheiros. Tudo deu certo lá: o treino do Albertinho, a equipe, até a cidade de São Paulo, apesar de eu preferir o Rio, é uma cidade que eu gosto. E o principal mesmo foi o meu técnico. Eu confio demais no Albertinho, no trabalho dele, deu muito certo pra mim. O Pinheiros é uma equipe muito forte, dois terços da seleção brasileira vem de lá. O recorde sul-americano já era um objetivo, mas acabou sendo uma surpresa sair no dia que saiu, porque eu tinha machucado o pé antes da competição. Por causa disso, fiquei 2 semanas parada, então não estava imaginando batê-lo naquele momento. Mas eu sou muito competitiva, e como falei, não sou de desistir fácil das coisas.

Falando em lesão, você já teve uma lesão no ombro, e nadando borboleta, essa região deve ficar bem sobrecarregada. Um artigo da BestSwimming de 2007 falava sobre nadadores de borboleta que mesmo sendo especialistas não treinam tanto o estilo, e você aparece como um dos exemplos. Como é seu treinamento de borboleta?
Pra falar a verdade, acho que a gente, como atleta profissional, se testa toda hora. Não só na competição, mas no treino, é normal sentir muita dor, e eu estou sempre superando meus limites, lutando contra a dor. Um pouco antes do Maria Lenk, inclusive, eu tive uma lesão nas costas e sinto muita dor no treino, mas nem quis tratar e fazer exames antes da seletiva para não me preocupar e acabar atrapalhando na conquista do índice. Agora que passou a competição estou fazendo fisioterapia, e sinto bastante dor, mas como falei isso é normal do atleta. Quanto ao borboleta, realmente é um estilo muito cansativo, então acabo nadando o estilo mais nas séries mais de intensidade. Nas séries com maior metragem, acabo nadando crawl, não dá pra fazer longas distâncias com o borboleta.

Aproveitando que você falou sobre o treinamento, como é sua rotina de treinos?
Isso depende muito da fase de treinamento. Mas basicamente treino de segunda a sábado, fazendo nove sessões de treino dentro d’água (com dois treinos na terça, quarta e sexta). Além disso, segunda, quarta e sexta faço musculação, e na quinta uma sessão de ginástica. A quilometragem varia de acordo com a fase. Durante o período de base, para pegar resistência, chega a 43km por semana. No específico, varia de 35km para menos. E no polimento, que costuma ser uma semana antes das competições, é bem mais leve e tem semana que a gente chega a nadar só 15km durante a semana inteira.

Voltando para as competições, como foi a experiência do PAN em 2007? Foi bem marcante a sua imagem chorando no pódio, e a final que foi muito disputada, com você e a Daiene Dias lutando pela medalha de bronze.
No PAN, eu tinha combinado com meu técnico de não forçar nas eliminatórias nem na semi-final, para guardar energia mesmo para a final. O que aconteceu foi que eu fiquei muito nervosa na final, nadei a prova toda errada, passei muito fraco, na parcial do 50 metros eu estava em 5°. Quando eu virei, ouvi todo mundo gritando, e eu sabia que estavam gritando pra mim e pra Daiene, mas que também era para mim! De repente deu um estalo, comecei a fazer muita força e consegui, foi por muito pouco. Comemorei ali, mas ainda não tinha caído a ficha. Só no pódio, depois, quando eu subi, recebi a medalhe e vi todo mundo me aplaudindo, caiu a ficha, e comecei a chorar. Toda minha família estava lá, foi uma competição muito especial.

No Sul-Americano deste ano, que aconteceu no Pinheiros, foi quando ficou claro para todos que o índice era uma realidade. Como foi isso pra você? Já esperava abaixar de 1 minuto? Já olhava o índice mais como objetivo do que sonho, ou foi só a partir dali que isso aconteceu?
Em 2007, apesar do resultado do PAN, eu não estava treinando muito bem, não estava conseguindo fazer os tempos que sempre fazia. Já queria ter nadado para 59 no open, no final do ano. Não deu, mas a competição acabou sendo boa mesmo assim porque recuperei meu recorde sul-americano e conquistei ali a classificação para o Campeonato Sul-Americano. Na competição, acabei conseguindo fazer o 59, que era uma coisa que eu queria muito, ser a primeira na América do Sul a baixar de um minuto. Por ter sido naquela competição, para a qual eu não estava treinada, onde só esperava chegar perto do meu melhor, ai foi uma surpresa. Mas quanto ao índice, já era um objetivo, algo que eu queria, mas a partir dali acho que foi quando caiu a ficha que eu podia. Eu digo que naquela competição, depois do 59”79, ficando a 44 centésimos do índice, as Olimpíadas deixaram de ser uma possibilidade e passaram a ser uma probabilidade.

E como foi esperar até maio, no Troféu Maria Lenk?
Foi horrível. Faltando duas semanas eu não queria ouvir falar de Olimpíadas, e coincidiu bem com a época que começou a aparecer na televisão que faltavam 100 dias para Pequim. Eu chorava toda hora, qualquer coisa que eu ouvia, pensava como eu queria estar lá, e o tempo não chegava, eu queria nadar logo!

Nesse período costumam passar mil coisas na cabeça do atleta, medo, raiva, alguns até começam a se perguntar se vale a pena isso tudo. Em algum momento algo desse tipo passou pela sua cabeça?
Nunca. Eu amo muito tudo isso que eu faço, não consigo imaginar a minha vida sem natação. Acho que isso tudo faz parte, o nervosismo é chato, mas faz parte. E acho que de algum jeito a recompensa sempre vem, sempre vale a pena.

E como foi o dia do índice? Conseguiu dormir bem na véspera?
Na noite de terça para quarta eu dormi mal, queria fazer o índice logo na eliminatória que seria na quarta à tarde. A partir do almoço até a hora da prova eu fiquei ‘acordadona’, dava pra ver meu olho arregalado, não queria fazer nada. Mas apesar de nervosa eu estava muito confiante, não enxergava a possibilidade de não fazer o índice.

O fato da Daynara ter feito o índice numa série anterior a sua mexeu com você de algum jeito?
Não mexeu comigo porque eu já estava preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Na última seletiva para o PAN isso tinha acontecido, a Daiane [Dias] bateu meu recorde sul-americano uma série antes da minha e tinha me atrapalhado um pouco, então dessa vez eu fui preparada para alguém fazer o índice antes de mim. Com o tempo que ela fez no 50 livre na terça, vi que ela estava bem e já esperava que ela pudesse fazer o índice nos 100 borboleta. Na hora em que eu vi o tempo, vi que ela tinha feito o índice e pensei que ia fazer um tempo menor ainda.

E como foi a prova e o momento que você chegou e viu o seu tempo?
Foi meio inacreditável porque eu esperava fazer o índice mas ninguém esperava que eu fosse nadar para 58, nem o meu técnico. Então foi até engraçado porque quando eu cheguei ele só ficou olhando os centésimos e quando viu o 90 achou que não tinha dado… mas todos ao redor estavam comemorando, até que outro técnico do Pinheiros virou para ele e falou: “Albertinho! Foi 58!”. Pra mim foi a mesma coisa, vi primeiro os centésimos, e quando vi que tinha sido 58.90 e tinha feito o índice, comemorei muito.

O 58.90 que você fez no Maria Lenk te coloca hoje em 24° lugar no ranking mundial dos 100 borboleta em 2008, sendo que a 8ª colocada está com 58.35, o que é pouco mais que meio segundo abaixo do seu tempo. O que você espera das Olimpíadas? Pensa em semi-final, final olímpica?
A semi-final acho que é algo provável, acredito que dá para baixar o tempo. No dia que fiz o índice eu estava muito nervosa, minha reação no bloco foi ruim, eu passei muito forte. Tenho certeza que dá para baixar, e estou treinando forte, malhando mais forte, comendo melhor… estou muito focada para Pequim. Acredito que a final será muito forte, a natação evoluiu muito nestes 4 anos. Agora tem que pensar em uma coisa de cada vez, primeiro pensar na semi-final, se conseguir, nadar a semi-final é outra história, ai com certeza vou querer entrar na final. Fora que chegando lá muda tudo, entrar no lugar, sentir aquela energia.

O que você espera da seleção brasileira de natação lá em Pequim?
Acho que o masculino está de novo com chances de medalha, principalmente com o César Cielo, que acho que a nível mundial está melhor posicionado até com relação ao Thiago Pereira. Mesmo assim, o Thiago também tem chances e o 4×100 medley está muito forte. No feminino, acredito numa final da Flávia [Delaroli] e da Joanna [Maranhão]. O revezamento 4×100 medley feminino também, acho que a gente deve classificar e lá temos chances de chegar a uma final.

Sei que ainda deve estar muito longe, mas você tem algum plano fora da natação? Pretende fazer alguma faculdade? Com o que gostaria de trabalhar?
Faculdade até tenho vontade de fazer, mas agora mesmo não dá, com esse ritmo louco de treinos não tem como levar uma faculdade. E também, se eu fizer, daqui a 4 anos não vou poder estagiar, trabalhar, então se eu fizer vai ser mais pra frente. Mas o que eu gostaria mesmo era ter um centro de estética. Adoro essas coisas, mexer com pele, cabelo, sou apaixonada por isso.

Pra terminar, queria que você deixasse uma frase, palavra, algo que te inspira.
Tem uma frase que eu gosto, ela é meio grande, mas é muito boa. É assim: “A excelência pode ser obtida se você se importa mais do que os outros julgam ser necessário; se arrisca mais do que os outros julgam ser seguro, sonha mais do que os outros julgam ser prático, e espera mais do que os outros julgam ser possível.”

Uma das esperanças do Brasil no atletismo era a participação de Fabiana Murer, recordista brasileira e sul-americana do salto com vara. Uma das modalidades mais difíceis do atletismo, ela consiste em usar uma vara flexível para se alçar ao ar e passar por cima de uma barra – tecnicamente chamada de fasquia ou sarrafo. As varas, atualmente, são feitas de fibra de carbono – indicadas para atletas mais rápidos, pois tem retorno mais rápido da envergadura – ou de fibras de vidro – estas indicadas mais os saltadores mais lentos.

O problema que aconteceu com Murer em Pequim foi o sumiço de uma de suas varas quando ela se preparava para dar seu segundo salto. Os atletas podem saltar no máximo três vezes para cada altura, mas caso já tenham ultrapassado a marca podem passar para a altura seguinte. As varas tem entre 5 e 6 metros, pertencem aos atletas e são usadas 5 delas durante a competição.

Fonte: Terra

A pista da prova tem deve ter 45m, e os atletas correm com a vara nas mãos. Essa é a primeira parte da prova, e uma das mais importantes, pois o número de passadas que o atleta dá durantre a corrida influencia na velocidade com que chegará ao momento do salto. As mulheres costumam dar 16 passadas, enquanto os homens dão cerca de 18 ou 20. A segunda parte da prova é quando o saltador, então, põe a vara em uma caixa de apoio de 20cm de profundidade e se alça para cima, sendo projetado sobre o sarrafo pela energia elástica acumulada pela vara. Aí, ocorre a fase aérea e a acrobática: na primeira, o atleta se joga para o alto, e na segunda, gira o eixo da vara para inverter a posição do corpo e passar pelo sarrafo, caindo depois de costas para o chão.

A prática surgiu na Europa, quando alguns homens descobriram a técnica de usar uma vara para cruzar obstáculos, como canais de ‘água por exemplo. Como esporte, já era disputado no masculino desde o início do século XIX, sendo que esteve presente na primeira Olimpíada da era moderna, disputada em Atenas em 1896. Por muito tempo, entendia-se que as mulheres não teriam a força suficiente para executar os movimentos, de modo que a prova feminina só passou a ser disputada em Olimpíadas a partir de 2000. Desde então, o principal nome do esporte é a russa Yelena Isinbayeva, que soma 26 recordes mundias, o último deles estabelecido em Pequim, com a marca de 5,05m. O primeiro recorde da prova, de 1992, era de 4,07m. No masculino, o grande nome da história é o ucraniano Sergei Bubka, que saltou 6,14m em 1994. Desde então, o feminino superou o masculino em termos de visibilidade, muito graças às performances de Isinbayeva e seu poder de marketing, potencializado pela sua forma física e beleza.

Muitas das saltadoras são ex-ginastas. O salto com vara envolve velocidade, coordenação e flexibilidade, e os últimos dois requisitos são muito bem trabalhados na ginástica artística. Não é a toa que tanto Isinbayeva como Murer foram ginastas na infância. A grande diferença é que, ao contrário das ginastas, as saltadoras são altas e magras. O treinamento do salto com vara envolve saltos, corrida, muita ginástica e musculação.

Decepção. Essa foi a principal palavra usada pela mídia no Brasil para se referir à participação do país na ginástica olímpica em Pequim. Com o maior número de finais da história, a melhor colocação de uma atleta no individual geral, a primeira final masculina e participando pela primeira vez na final por equipes feminina, mesmo assim decepção foi a palavra de ordem.

Não que as expectativas não fossem maiores. Eram. Um pódio era uma possibilidade real, talvez até mais de um. O Brasil chegava aos Jogos com um bi-campeão mundial (Diego), uma campeã mundial (Jade), fora Daiane e Daniele, que já triunfaram em mundiais há alguns anos mas vinham com resultados menos expressivos nos últimos tempos.

Tampouco é mentira que o esporte é feito de resultados. É cruel, mas é verdade que se Cielo tivesse sido um centésimo mais lento nos 100 livre a medalha de bronze não viria e, com um emocional abalado, o 50 livre podia não trazer a medalha de ouro e a natação sairia de mais uma Olimpíada sem pódios. Mas é um “se”, e o que importa é que foi. O que importa é o resultado, essa é a verdade mais cruel do esporte, mas é a verdade (não fosse isso não veríamos cenas como a expressão desconsolada Diego ao sair do tablado após falhar na final do solo).

Mas convém lembrar que foi, de qualquer maneira, a melhor participação em Jogos (e não foi por pouco. O máximo que já havia sido conquistado foi a final do solo de Daiane e de Daniele no individual geral). Dizer que os jornais foram objetivos e imparciais, cumprindo seu dever de informar, ao estampar palavras como decepção nas manchetes, isto é mentira.

É mentira porque nunca vi uma manchete dizendo que “Lula decepciona e não cria o número de empregos que prometeu”, ou “Decepção! PSDB no Rio de Janeiro tem ligações com o narcotráfico”. Pois se fosse para dizer que algo é decepcionante, os jornais deveriam colocar em letra maiúscula que o fim da seleção permanente em Curitiba, que tantos resultados incontestáveis trouxe ao Brasil, este sim é decepcionante. Decepcionante é o governo gastar bilhões de reais com a realização do PAN e depois deixar os complexos obsoletos, sem capacidade de criação de projetos sociais de incentivo ao esporte, ou no mínimo utilização por equipes de alto rendimento – mas lógico que tem capacidade de formular uma proposta bilionária para trazer as Olimpíadas para o Brasil em 2016.

Isso é reflexo da diferenciação com que se trata a mídia esportiva e a mídia política ou econômica no Brasil. Esta mais importante e séria, aquela mais descontraída e “fácil”. Engraçado como os jornalistas esportivos são quase “obrigados” a revelar o time pelo qual torcem, enquanto os jornalistas políticos podem se abster de revelar seu voto ou suas preferências políticas. Distinção estranha. Se esporte não é sério, não sei o que é seriedade depois de ver algo ser tratado com tanta paixão como a ginástica é para Diego ou a natação para Cielo. Ser atleta é uma profissão como outra, e possui todas as desigualdades latentes que imperam no Brasil – um jogador de futebol de pouca expressão pode chegar a ganhar 10 vezes o que ganha um nadador ou corredor.

Indo além, isto é reflexo do desleixo com que se trata o esporte no Brasil e depois se exige resultados, como se uma bolsa à um ano do início dos Jogos resolvesse algum problema. É claro que o Brasil tem outros problemas prioritários, mas não se pode negar o papel social do esporte. As disfunções no investimento esportivo no Brasil não estão apenas no nível olímpico, mas na falta de politicas esportivas desde a infância, sabendo que o esporte é vital para a saúde, qualidade de vida, e melhor inserção na sociedade. São incontáveis os casos de atletas que afirmam que, não fosse o esporte, estariam sem rumo e sem perspectivas.

A mesma imprevisibilidade que traz um ouro pode fazer alguém perder uma medalha por um centésimo ou errar o movimento mais fácil. São tantos casos de gente que treinou muito, se preparou, chegou nas Olimpíadas e deu tudo certo. Tudo certo pra uns é levar o ouro, para outros é chegar no pódio, pra outros é melhorar seu tempo, pra outros é voltar a velha forma, para muitos simplesmente é estar lá. Em cada país, há mais milhares de atletas que lutaram nas seletivas nacionais e não puderam ir aos Jogos, alguns por míseros centésimos, por alguns pontinhos, por uma contusão na hora errada. Diego errou o que não podia ter errado e conheceu a face mais injusta das Olimpíadas, a impossibilidade de fazer de novo. De saber que sua segunda chance vai demorar 4 anos. Isso é o que há de mais cruel nos Jogos, mas também o que o envolve de magia e, no final das contas, faz dele o maior evento esportivo de todos os tempos.

É inaceitável que alguém trate o esporte com menos cuidado que qualquer outro assunto. Diego vai treinar, dar a volta por cima, e quem sabe daqui a 4 anos os repórteres não estarão descobrindo seu prato preferido e entrevistando seus amigos de infância que dirão que Diego “sempre foi competitivo” e é um “ótimo menino”. Se fosse verdade que a vitória de Cielo é a vitória de 180 milhões de brasileiros, a derrota de Diego deveria ser a derrota dos mesmos milhões de pessoas. Que tenha cabeça boa pra aguentar toda essa pressão – principalmente a maior de todas, que é dele mesmo – e volte com tudo.

Uma foto de Diego feliz, porque ninguém é melhor ou pior por causa de 9 décimos.

50 livre feminino – Steffen ganha segunda prova e Dara Torres é prata

Disputada em Olimpíadas desde 1988 no feminino, a prova de 50 livre tem como maior nome na história a holandesa Inge de Bruin, bi-campeã olímpica. Mesmo com a aposentadoria da estrela, o país estava bem representado, com a presença na final das holandesas Hinkelien Schreuder e Marleen Veldhuis. A útlima, inclusive, quebrou em março o recorde mundial da prova que pertencia a de Bruin desde 2000.
Cinco dias depois Libby Trickett tomou o recorde para si e foi a primeira nadadora a baixar dos 24” na prova, nadando para 23”97 na seletiva australiana. Completando a briga pelo pódio, Dara Torres, americana de 41 anos, e a australiana Cate Campbell, de apenas 16 anos. A prova prometia uma disputa entre gerações e uma briga forte pelo pódio.

Torres marcou o melhor tempo na semi-final e nadava na raia 4 pelo primeiro ouro olímpico individual de sua carreira. A forma física da atleta impressionou a todos. Depois de ter uma filha e se aposentar após as Olimpíadas de Sidney, Torres passou a disputar torneios master nos Estados Unidos. Foi convencida a voltar aos treinos pelo técnico Michael Lohberg – que treina atletas de diversos outros países e está seriamente doente, sendo impedido de ir a Pequim. Nas seletivas americanas, conquistou a vaga nos 50 e 100 livre, mas optou por nadar apenas a primeira e os revezamentos 4×100 livre e medley. Dara já era a nadadora americana mais velha dos Estados Unidos a participar de uma Olimpíada e, se conquistasse uma medlaha, seria também a mais velha da história a conseguir tal feito.

Ao seu lado, na 5, estava Cate Campbell, nascida em 1992, ano em que Torres conquistava sua quarta medalha olímpica em sua terceira Olimpíada. A australiana classificou melhor que Trickett, mas mesmo assim a recordista mundial era um dos nomes mais fortes para a prova.

Como qualquer prova de 50 livre, foi tudo muito rápido e Torres parecia ter uma ligeira vantagem sobre Campbell. Mas, nos últimos metros, a campeã dos 100 metros Britta Steffen forçou muito e levou o ouro por apenas 1 centésimo. Dara Torres conquistava a prata, sua melhor colocação individual em Olimpíadas. Campbell levou a melhor na disputa australiana e tirou o bronze de Trickett por 8 centésimos. Veldhuis também não foi bem e marcou apenas a quinta marca, com 25”26.

Mesmo com a prata, Torres fez história. Para se ter uma idéia da grandiosidade do feito, os 24”07 de Torres são novo recorde americano. A primeira vez que Torres bateu essa marca foi em 1982, quando ainda era uma garota de 15 anos. São nada menos do que 26 anos de diferença entre os dois recordes, idade menor do que a campeã da prova, Steffen, que tem 24.

1500 livre masculino – Não deu para Hackett

Após o louvável 5º lugar de Pieter van den Hoogenband, as esperanças de que a natação saísse de Pequim com seu primeiro tri-campeão olímpico recaiam sobre Grant Hackett. Duas vezes ouro nos 1500 livre (Sidney e Atenas), o australiano buscava o lugar mais alto do pódio para escrever seu nome na história.

Após um tempo fora de forma, Hackett chegava bem à capital chinesa, tendo batido o recorde dos 800 livre em piscina curta semanas antes dos Jogos. Nas fortes eliminatórias da prova, onde foi necessário nadar para 14’49 para se garantir na final, Hackett fez fortes 14’38”92 e bateu o recorde olímpico. Tudo indicava que a disputa seria difícil, mas o australiano tinha plenas condições de levar o tri.

Hackett começou na frente, seguido de perto por Ryan Cochrane. Com os 14’40”94 estabelecidos nas eliminatórias, o canadense vinha como o 2° melhor tempo de toda história na prova. Após 700 metros colados com Hackett, o canadense começou a virar na frente, mas o australiano não o deixava descolar. Mas enquanto os dois duelavam, virando na casa dos 29” alto nas parcias de 50, o tunisiano Osama Mellouli vinha chegando na 7, virando sempre para 29” baixo. A partir dos 1100 Mellouli assumiu a ponta e não perdeu mais. Hackett desgrudou de Cochrane e ainda tentou forçar nos últimos 100, mas deveria ter atacado antes se quisesse passar Mellouli. O tunisiano, que treina e estuda nos Estados Unidos, ficou 18 meses suspenso da natação após ser pego no doping por utilizar um remédio com o intuito de o manter acordado durante suas provas na faculdade, mas que figurava também entre as substâncias proibidas. Em Pequim, conseguiu a redenção, levando o ouro e batendo o bi-campeão Grant Hackett, ainda recordista mundial. Com o tempo das eliminatórias (14’38”92) , Hackett levaria o ouro, mas nadando 3 segundos pior na final, o australiano teve que se conformar com a prata.

Cochrane assegurou o bronze numa disputa acirrada com o russo Yuriy Prilukov, que terminou na quarta colocação assim como em Atenas. Larsen Jansen, prata em 2004, foi apenas 5° e o outro americano na prova, Peter Vanderkaay, que chegou a Pequim com o melhor tempo do ano, não conseguiu se classificar para a final.

4×100 medley feminino – Austrália é ouro

Campeãs em 2004, as australianas vinham muito fortes e favoritas ao bi. Com a opção de colocar Libby Trickett para fechar no crawl, a Austrália tinha a campeã do 100 peito (Leisel Jones), a 2ª colocada no 100 livre mas recordista mundial da prova (Libby Trickett) e a 3ª colocada no 100 borboleta (Jessica Schipper). O único ponto fraco era mesmo Emilly Seebohm, que teria que tentar diminuir ao máximo a vantagem certa que Natalie Coughlin imporia aos Estados Unidos.

Coughlin não conseguiu abrir tanta vantagem no costas, mesmo marcando 58”97. A Rússia e a Inglaterra vinham logo atrás e a australiana foi só a quarta nadadora a chegar. Mas com Jones na piscina e sua parcial de 1’04”58, as outras seleções não só foram ultrapassadas como a Austrália abriu vantagem. Para o borboleta, Magnunson, dos EUA ainda buscou Jessica Schipper, e a disputa final seria entre Libby Trickett e a veterana Dara Torres, que já tinha duas pratas em Pequim e queria o ouro. Mas não deu para a americana. Mesmo fechando para a melhor parcial da história, com 52”27, o tempo não foi suficiente para ultrapassar Trickett e a Austrália levou o ouro com novo recorde mundial (3’52”69).

A briga pelo bronze foi boa. A Rússia se manteve na 3ª colocação a prova inteira, mas na saída do crawl a China já virou empatada e quem vinha para fechar era Pang, desclassificada no 100 livre mas um dos melhores tempos do mundo na prova. Não deu outra. A China levou o bronze com 3’56”11, abrindo boa distância das outras equipes. A Rússia não conseguiu segurar nem o 4° lugar, que ficou com a Inglaterra, nova recordista européia da prova.

4×100 medley masculino – Não foi tão fácil, mas EUA levou o ouro e Phelps se consagra como o maior de todos os tempos

Depois da conquista do 6° ouro de Phelps, dizia-se que, conquistando o ouro no 100 borboleta, este já poderia ser considerado o 7° e o 8°. Isso porque seria muito improvável que o revezamento americano perdesse a prova. Mas não foi tão fácil assim, e dessa vez Phelps foi mais que decisivo para a vitória americana.

Peirsol abriu com a condição de campeão olímpico e recordista mundial do 100 costas, mas piorou muito seu tempo e com 53”16 não conseguiu abrir a distância esperada para os EUA. Para piorar, quem caiu para o peito foi Brendan Hansen, que buscava se redimir do seu 4° lugar individual mas nadou mal novamente e entregou para Phelps apenas em terceiro. Kitajima, com uma parcial fantástica de 58”07, colocou o Japão também na briga.

Phelps caiu atrás de Takuro Fujti e Andrew Lautersntein, e ainda virou atrás no 50m, mas com sua virada fantástica assumiu a liderança e entregou para Lezak em primeiro. Após sua atuação fora de série fechando o 4×100 livre, a dúvida era se saindo na frente Lezak também se sairia bem. E se saiu. Sullivan, da Austrália, tentou buscar mas essa realmente não foi sua Olimpíada, e além disso Lezak fechou muito bem. Com 3’29”34, os Estados Unidos levaram o ouro, o recorde mundial e Phelps atingiu seu sonho e objetivo. Chegava à sua oitava medalha de ouro nos Jogos.