Depois de ser prata nas Olimpíadas de 2004 e na Copa do Mundo de 2007, a seleção feminina de futebol do Brasil chegou às Olimpíadas com chances de chegar ao ouro. Mas ainda não foi dessa vez. Após passar pela forte campeã mundial Alemanha nas semi-finais, as meninas do Brasil tinham pela frente a seleção norte-americana, algoz de Atenas. Mas as brasileiras já haviam batido os EUA em um jogo importante, nas semi-finais da Copa do Mundo, em 2007. Em Pequim, pela primeira vez chegavam a final como favoritas ao ouro.

Das 18 jogadoras a seleção norte-americana, só 7 estiveram em Atenas. No caso do Brasil, são 10 as remanescentes da equipe de 2004, entre elas a jogadora Marta, eleita pela Fifa como a melhor jogadora do mundo em 2006 e 2007. Os perfis das duas equipes são diferentes também. Um rápido levantamento mostra que na seleção americana nem todas as jogadoras atuam nos EUA, mas todas passaram pela Liga Universitária do país. E as que não jogam nos Estados Unidos estão em países que mantém ligas femininas fortes e estruturadas, como Suécia e Alemanha. Pelo Brasil as coisas são diferentes. Das 18 jogadoras que estiveram em Pequim, só 8 atuam fora do país. São 3 jogadoras na Suécia: Marta no UEMA e Cristiane e Daniela Alves no Linkoping. O país possui um dos campeonatos mais fortes do mundo, o deste ano reunindo 12 clubes e mais de 40 jogadoras estrangeiras. Outro país de destino das brasileiras é a Espanha, que hoje só conta com a goleira Andréia no Prainsa, mas já teve passagens de jogadoras pelo Rayo Vallecano e Sporting Huevla. Completam os destinos a Áustria, Dinamarca, França e Japão, onde joga Pretinha, a mais antiga jogadora da seleção. A atacante defende as cores verde-amarelas desde 1991 e participou de todas as quatro Olimpíadas desde que foi introduzido o futebol feminino nos Jogos. O balanço de Pretinha nas Olimpíadas é o balanço da seleção brasileira: duas vezes 4° lugar e duas vezes prata, o que indica que o Brasil sempre chegou as semi-finais, mas nunca venceu nos jogos finais (disputa do bronze ou do ouro).

As outras 8 jogadoras que não estão no exterior estão espalhadas pelo Brasil. Quatro delas (Érika, Ester, Francielle e Maurice) jogam no Santos Futebol Clube, equipe do litoral paulista que é uma das poucas que mantém uma equipe de futebol feminino. O Santos, cujo técnico Kleiton Lima é também o treinador da seleção brasileira sub-20, mantém não só a equipe principal como uma escolinha para as categorias de base. Iniciado em 1997, o trabalho rendeu títulos paulistas, da Copa Mercosul, e a primeira colocação na Liga Nacional de 2007. Na ocasião, o time bateu a equipe do Botucatu, também incentivadora do esporte e clube pelo qual passaram muitas jogadoras de destaque da seleção. Quem joga lá atualmente é Formiga, a segunda atleta com mais tempo de seleção, atuando pelo Brasil desde 1995.

O Corinthians também montou há poucos anos uma equipe de futebol feminino. Outros clubes que se destacam são o Ferroviário, Juventus, Sport Recife e Saad, sendo este um dos principais times da história do futebol feminino no Brasil. Fundado em 1961, ele começou a ter equipes de mulheres em 1985. Localizado no ABC paulista, o time esbarrou na Federação Paulista de Futebol, que não permitia inscrições de equipes femininas. Graças a uma parceria com a Federação do Mato Grosso do Sul, o clube conseguiu se inscrever e passou a disputar torneios no Brasil e no exterior. Há poucas informações sobre esses torneios, que não eram organizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O primeiro torneio feminino do Brasil foi a Taça Brasil, organizada pelo presidente da equipe do Radar, do Rio de Janeiro, em 1983. Disputado até 1989 e sempre vencido pelo Radar, reunia poucas equipes e não era considerado profissional. Aliás, apesar de algumas mudanças, muito continua igual. O principal torneio feminino do Brasil, a Liga Nacional, é organizado por uma entidade administrativa que leva o mesmo nome do torneio. Fundada em 1999, organiza campeonatos para jogadores amadores , e não há um número certo de equipes que participarão dos campeonatos, tudo dependendo do contexto de cada ano. O único torneio organizado pela CBF é a Copa do Brasil de Futebol Feminino, mas o destaque mínimo dado no site da Confederação corresponde a atenção dada pelos dirigentes.

O cenário mostra que o confronto principal já estava perdido pelas jogadoras antes de entrarem em campo. Não se trata de tentar alçar, de uma hora para outra, o futebol feminino à condição que o masculino possui, pois isso esbarra em falta de interesse público e do público, além de um preconceito que ainda não acabou- mas convenientemente desaparece na hora de torcer por mais um ouro no quadro de medalhas. Não dá pra imaginar, de qualquer forma, que o futebol feminino poderia ou pode ocupar a visibilidade que tem o masculino, mas a CBF poderia ao menos dar um pouco mais de dignidade às jogadoras que representam tão bem o país (ultimamente melhor que os homens, aliás). Tanto que declarações dizendo que a idéia é formar um campeonato que traga as maiores estrelas de volta para o Brasil é ilusória. Quem consegue ir para um time forte do exterior deve fazer isso mesmo – como o fazem os homens – mas para quem fica, falta um campeonato decente, cumprir promessas de anos olímpicos, e um mínimo de estrutura. As jogadoras do Brasil jogam com duas partes do tripé de qualquer atleta: talento e treino. Falta só apoio.

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